Esporte & Cultura: O atleta e o prêmio

Nada é mais cobiçado por um atleta olímpico do que uma medalha. Além do material precioso e do trabalho artístico que a decora, o objeto possui o valor simbólico da conquista e superioridade. Ela representa para quem a conquistou a vitória sobre si e seu adversário.

A premiação com medalhas foi criada em conjunto com a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896. Embora a cerimônia de premiação seja uma tradição de longa data, é evidente que o objeto concedido como prêmio não foi, e não é, sempre o mesmo, podendo ser diferente conforme o tempo, o tipo de competição e o desempenho alcançado pelo atleta. Não são estranhas para nós as famosas taças que são distribuídas para os times campeões de futebol ou os cinturões de campeão que os boxeadores e lutadores do UFC recebem.

Ouro, prata e bronze são metais nobres para a sociedade contemporânea, portanto o que há de mais valioso, mas nem sempre foi assim. A premiação dos Jogos Olímpicos da Antiguidade era dada somente ao primeiro lugar e consistia em uma modesta coroa trançada com ramos de oliveira. Como eram feitas de materiais perecíveis, nenhum exemplar resistiu à ação do tempo para chegar até os nossos dias.

Porém, em competições que ocorriam intercaladas com as Olimpíadas, as premiações oferecidas aos vencedores eram feitas de materiais mais resistentes e, consequentemente, algumas peças ainda estão intactas atualmente. As mais notáveis são as ânforas panatenaicas, que nada mais são que grandes vasos de cerâmica decorados e preenchidos com azeite. Eram oferecidas nos Jogos Panatenaicos, competição que acontecia a cada quatro anos na cidade de Atenas, em comemoração à deusa Atena. Os atletas que competiam nos Jogos Panatenaicos também competiam nas Olimpíadas.

No final da década de 1950 foi encontrado em Tarento, na Itália, o que parece ser o túmulo de uma atleta. A datação da cerâmica depositada na estrutura é de 480 a.C., período em que essa porção da Itália pertencia à Grécia. A área era conhecida na Antiguidade como um local de treinamento para atletas.

No interior da sepultura havia o esqueleto de um homem e um vaso pequeno, quatro ânforas panatenaicas estavam dispostas nos quatro ângulos do sarcófago. Todo esse contexto funerário composto por ossos e objetos pode nos dar uma ideia de quem era esse indivíduo.

As análises osteológicas do esqueleto, que ficou conhecido como “Atleta di Taranto”, foram conduzidas nas décadas de 1980, 1990 e nos primeiros anos do século XXI. Os resultados sugerem algumas características físicas do atleta. Era este do sexo masculino, com idade entre 20 e 30 anos e media aproximadamente 1,74 metro, algo ligeiramente acima da média para o período. Além disso, possuía musculatura desenvolvida e ombros largos. Alguns desgastes nas articulações dos ombros, bastante acentuado no lado direito, indicam que era um atleta dedicado ao lançamento de disco. A forte musculatura das panturrilhas são indícios de que ele era um grande saltador.

Outros aspectos não biológicos, mas sociais, complementam as informações e permitem colocar esse atleta dentro de um contexto social. Próximo ao seu corpo foi depositado um tipo de vaso chamado de alabastro, que servia de recipiente para carregar óleos perfumados.

Das ânforas dispostas ao redor da sepultura, uma delas muito fragmentada não pôde ser reconstituída, as outras três, além da cena da deusa Atena, continha, cada uma, representações de modalidades desportivas.  A ânfora que mais se encaixa nas características físicas do esqueleto mencionadas acima é a que contém a cena de uma competição de pentatlo – que na época consistia em lançamento de disco, lançamento de dardo, luta grega, corrida e salto em distância.

Outra ânfora mostra em sua decoração uma cena de boxe e a terceira uma corrida de quadrigas, carros puxados por quatro cavalos. A boa qualidade dos dentes e dos ossos da mandíbula e da face não é compatível com alguém que tenha dedicado boa parte de sua vida ao boxe. Por outro lado, é possível que o atleta tenha acumulado certa riqueza durante sua carreira, o que lhe permitiu patrocinar carros e cavalos para alguma competição equestre.

Essa é a explicação mais aceita para a ânfora que exibem uma cena desse tipo. Possuir, sustentar e manter cavalos era possível apenas para pessoas muito ricas. Geralmente, o dono dos animais não competia, mas dispunha de jóqueis que corriam com seus cavalos. Um exemplo marcante é o de Alcibíades, um aristocrata ateniense que, em 416 a.C., colocou sete carros para as Olimpíadas, arcando com custos de logística, transporte e manutenção dos carros, cavalos e dos jóqueis.

Hoje, dificilmente vamos nos deparar com algum medalhista que deseja vender sua medalha olímpica. O valor econômico e artístico da mesma não se sustenta sozinho, antes, ela exerce fascínio por aquilo que representa. Queiram notar: o objeto adquire um poder que extrapola seu valor de mercado, seja ele pautado pelo preço do metal em questão ou da obra artística produzida em número limitado. Liga-se assim a aquele que o conquistou, representando todo o seu mérito esportivo. De metal nobre ou singelo, o fato é que o prêmio, enquanto material, não pode ser dissociado do poder simbólico que possui.

O atleta de Tarento é um exemplo emblemático. Tanto o seu corpo, como seus objetos, entre eles as ânforas, são a parte material da prática esportiva. A relação entre o atleta e seus objetos é tão forte que permaneceu mesmo após a morte, fazem parte de quem ele foi e continuam a reforçar a identidade deste indivíduo. Ele é definido pelas suas conquistas, expressadas materialmente, e suas conquistas só são reconhecidas enquanto símbolos de vitória em função de suas ações.

 

Francisco Sabadini é mestrando em Arqueologia pela Universidade de São Paulo

Contato: franciscosabadini@hotmail.com

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