Papo com João: O jeito de torcer

João Gonçalves

Esse é um tema delicado de se tocar. Mas, este espaço aqui é mesmo para reflexão e para fazer você leitor pensar junto comigo. Um fato recente me chamou a atenção com relação ao comportamento do torcedor nas arenas olímpicas. Num tempo em que muito se fala sobre doutrinação nas escolas, sobre uniformização na forma de pensar e o perigo que a internet oferece para a propagação de comportamentos duvidosos, a última coisa que eu quero insinuar é que esse raciocínio possa ser uma espécie de cartilha do como torcer. Ela não existe, e se Deus quiser, nunca vai existir.

Ao conversar com uma pessoa próxima, que não tem por hábito frequentar estádios de futebol ou outras modalidades, mas que esteve em Brasília e Salvador acompanhando jogos de futebol na Olimpíada, notei que a forma de torcer por parte de um grupo de torcedores lhe causou certa repulsa. A cada tiro de meta que o goleiro adversário cobrava, a galera entoava em coro: “Bicha”.  Horrorizada, ela veio comentar comigo que achava inacreditável que, em 2016, gritos pretensamente homofóbicos fizessem parte do cotidiano das arquibancadas.

Com o intuito de esclarecer, expliquei. Originalmente, esse grito vem do México. Os mexicanos já ha mais de três décadas esbravejam, “puto” toda a vez que o goleiro adversário bate tiro de meta “Puto” vem de “putozin” que, na língua nativa Nahuatl, significa “desejo que ele dê um chute horrível”. Porém, duvido que 10% das pessoas que se manifestem assim, conheçam a profundidade da história. No mais, é sim uma manifestação homofóbica, de muito mau gosto por sinal. Uma adaptação infeliz de um coro que em seu nascimento tem um motivo divertido de ser.

Claro, pontuei também o contexto de que o estádio é um local onde certos comportamentos que não são bem vistos em qualquer outro espaço, são socialmente aceitos e praticados. Por exemplo: Quem nunca foi ao estádio e xingou a mãe do juiz, ou, acusou o próprio árbitro de “ladrão”. Isso não quer dizer que quem o fez pense que isso realmente seja a verdade. É a forma de se manifestar o descontentamento com o serviço prestado pelo mediador do jogo. Não dá para tratar quem apita com a singela frase. “Olha meu senhor, não estou satisfeito com seu trabalho hoje”. Então, a pergunta que fica é. Até onde podemos ir nas nossas manifestações pessoais nas arenas? Há limites?

Foto: Agência Brasil

Next Post

Torcida nunca é demais?

seg ago 22 , 2016
Luiz Filipe Guarnieri Manara* Nesse domingo (21), começa a Paralimpíada Rio 2016. Quem está por dentro do esporte paraolímpico pode ficar tranquilo, não estou ficando maluco. É que nesta data, os cerca de 270 atletas que irão representar o Brasil em diversas modalidades, se apresentarão em São Paulo, para realizar o […]