Odontologia nas competições de alto nível

Por Benedito Pigozzi

Nem bem saímos de uma Olimpíada no Rio e o Brasil está no ritmo das eliminatórias para próxima Copa, reafirmando o esporte como uma prática de profundas raízes na nossa cultura. Entretanto, quando se fala sobre um determinado assunto, diz-se que ele é parte de algo, que integra tal matéria, que sua teoria começou a ser desenvolvida há décadas, etc.

Com a odontologia desportiva isso ainda não acontece no Brasil, apesar dos esforços de diversos profissionais no sentido de seu reconhecimento. Enquanto isso não ocorre, em competições esportivas ou mesmo simples treinamentos, os problemas relacionados à odontologia aparecem na prática, principalmente quando há queda no rendimento do atleta ou o surgimento de algum acidente. Reconhecida como uma das ciências responsáveis pela saúde humana, justamente por se responsabilizar pela prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças bucais, assim como reconhecer manifestações buco-dentais e de anexos que representem doenças sistêmicas, a odontologia é hoje peça fundamental para o desenvolvimento do esporte.

No Brasil, apesar de ser um dos países com maior índice de cárie do mundo, a preocupação com a saúde bucal dos atletas tem sido manifestada há alguns anos, embora estatísticas nesse sentido não apareçam. Desde 1958, temos um cirurgião-dentista (CD) integrando nossa equipe esportiva, nas Copas do Mundo de Futebol. Considerado o pai da Odontologia desportiva em nosso país, Mário Trigo viajou com a Seleção Brasileira de futebol nas Copas de 1958, 1962 e 1966. Só em 1958, examinou 33 jogadores e foi obrigado a realizar 118 extrações. Depois dele, Carlos Sérgio Araújo (1994, 1998 e 2002) integrou a Seleção Brasileira de futebol como dentista.

Nas Olimpíadas, entretanto, o Brasil já era o único país do mundo que contava com um cirurgião-dentista permanente em sua delegação olímpica, desde 1963, quando aconteceram os Jogos Panamericanos, em São Paulo. Era Aldo Forli Scocate, que foi o responsável pela saúde bucal de brasileiros que participaram de Olimpíadas. Só nesta, foram 265 atendimentos, representando uma média de 14,6 casos por dia, um índice bastante alto para uma equipe como a nossa, com 465 integrantes no Rio. A consequência deste trabalho foi a tranquilidade psicológica para os atletas, reconquista da performance muscular, melhora no rendimento e até boas colocações esportivas para o Brasil.

Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, o Brasil contou com uma delegação de 245 atletas. E a exemplo do que aconteceu no ano anterior (Pan 2003), o país mais uma vez teve a presença de um cirurgião-dentista na comissão médica. Nos Jogos Panamericanos de 2003, em Santo Domingo, na República Dominicana, a delegação brasileira também foi a única a ter um CD exclusivo. André Luiz Camargo permaneceu durante toda a competição a serviço dos atletas.

Além disso, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também possui um CD em seus quadros, Afonso Rocha. E a Associação Brasileira de Odontologia (ABO) é idealizadora do projeto de lei PL 5391/2005, que obriga a presença de CD especializado em odontologia desportiva em competições, sendo este projeto encampado e apresentado por Gilmar Machado (PT-MG) na Câmara dos Deputados O projeto continua em andamento.

O tema odontologia desportiva faz parte do currículo escolar de várias universidades norte-americanas. Conta também com publicações a respeito em diversas revistas odontológicas e médicas de países como França, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Austrália, Itália, Alemanha, Finlândia, República Tcheca e Canadá. E integra ainda documentos do Comitê Olímpico Internacional (COI), quando trata especificamente da prevenção de concussão durante a prática esportiva.

No Brasil, de acordo com a pesquisa realizada pelo Serviço de Documentação Odontológica (SDO) da biblioteca de Odontologia da Universidade de São Paulo, nada existia sobre o tema, que tenha sido registrado em seus arquivos até os anos 90. Espero ter colaborado para esclarecer um pouco da história da odontologia no esporte.

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