Guto Ferreira dá sequência à ‘Era Mogiana’ no Internacional

Ele nunca treinou time grande.

Às vezes é técnico de time pequeno.

Vamos esperar mais um pouco para ver se vira técnico de alto nível.

As frases acima, por vezes, são ditas em botecos e repetidas em programas de televisão ou rádio. Muitos e muitos técnicos carregam um carimbo na testa de ‘treinador de time pequeno’. Oras, com raras exceções, todos os grandes, precisaram passar por estágios. Tite ganhou projeção no Caxias e foi direto para o Grêmio. O mesmo ocorreu com Mano Menezes, que saltou no XV de Novembro de Campo Bom para o time gremista. Claro que há casos como Rogério Ceni e Fábio Carille, que, por diferentes motivos, já largaram em clubes midiáticos.

Mas, antes da consagração, Zidane treinou o Real Madrid Castilla (time B do Real) e Guardiola foi comandante do Barcelona B. Luxemburgo, de volta aos holofotes após o acerto com o Sport, começou no Bragantino e de lá ganhou projeção para o Palmeiras. Os ‘times pequenos’ fazem parte do ciclo que muitas vezes esbarra em máximas ultrapassadas. A tese é tão frágil que o uso do termo ‘time’ já trava a argumentação. Os clubes, por vezes, podem ser pequenos, mas os times são maiores que rivais abonados.

O Mogi Mirim de 2012 teve campanha mais sólida que o Palmeiras no Paulistão. A Ponte Preta de 2014 terminou à frente do Vasco da Gama. O Bahia da atual temporada é ou não é mais consistente que o Vasco da Gama? Aliás, como tratar uma Ponte ou um Bahia como pequenos? A pressão destas torcidas, em muitos momentos, é maior do que em muito clube tratado como gigante.

Em todos estes times, clubes ou como desejar rotular, lá estava Guto Ferreira. O técnico construiu uma carreira de imersão. Começou na base do Internacional, onde obteve grande sucesso. Passou por outros setores do Colorado e foi despontar para o futebol nacional no comando de um Mogi Mirim que por muito tempo respeitou a fórmula de lançar técnicos distantes do radar mais alto do futebol brasileiro.

Em 2011, deixou a base do Sapo para assumir o comando profissional. Ele substituiu Antônio Carlos Zago, outra aposta da diretoria que ainda galgava espaço como treinador, apesar da carreira vitoriosa de jogador. A coincidência com o atual momento é sim chamativa. Nesta terça-feira, dia 30 de junho, Guto oficialmente foi confirmado como substituto de Zago em outro vermelho. No Internacional, aquele, em que o piracicabano aprendeu a ser técnico.

Ambos herdam um Inter que ainda reclama da passagem de Argel, outra aposta do Mogi Mirim. Não sou um contestador do trabalho de Argel, apesar de que, no Inter, os resultados e o legado não foram legais. No Sapo, Argel teve tanto sucesso quanto Ferreira. Claro que pegou o time em uma A2, diferente de Guto, na elite estadual. Mas, seu trabalho deu projeção a Robinho, Lins e Gil (in memorian) e o Sapo retornou à A1 em 2008.

Os três técnicos possuem características diferentes e a que mais me agrada é justamente do ‘novato em times grandes’. Guto quase passou do ponto. Há muito tempo merecia a chance em uma agremiação de maior audiência. O São Paulo o cogitou. O Corinthians também. O Santos idem. Mas, a máxima de boteco travou uma evolução em casos que, ao menos publicamente, não passaram de especulação. Agora, não. Houve negociação e há quem ainda torça o nariz para Guto. Paciência.

Claro que apostar em qualquer trabalho antes de ser iniciado é lotérico. Mas, pela construção e até reconstrução de sua carreira, Guto mereceu a oportunidade. Terá como missão livrar o Internacional de uma campanha desgastante na Série B e a obrigação de colocar o time na Série A como campeão. Nenhum colorado aceita menos que isso. Fosse o Guardiola ou o Gordiola, como é carinhosamente chamado. Tão qual o espanhol, Ferreira é um estudioso. Sem querer criar rivalidade, é a antítese de Renato Gaúcho, técnico do arquirrival Grêmio. Durante a carreira, desenvolveu sua capacidade de gerenciar e conviver com os comandados e parece talhado para decolar.

Tudo isso com o gabarito de quem teve a oportunidade de aprender a bater as asas no Mogi Mirim. Osvaldo Alvarez, Nelsinho Baptista, Paulo Bonamigo, Adilson Baptista e tantos outros passaram pela mesma escola de base. Tite, hoje na Seleção e referência, só não integra a lista por alguns zeros a mais na conta que lhe foram propostos pelo Grêmio, em 2001, quando Henrique Stort, então gerente de futebol do Mogi, costurou acordo com o então promissor técnico do Caxias. Uma pena que este olhar futurista e sensível do Mogi Mirim se perdeu. Ainda mais com o desgoverno atual do Sapão. Ainda assim, o legado mogimiriano hoje tem um capítulo importante, com a chegada de um alegre Guto Ferreira ao Porto que um dia já foi sua casa. Mais um manto vermelho que poderá colocar em um degrau acima no futebol nacional. Boa sorte, Guto!

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