Os erros que resultaram na saída de Rogério Ceni

“Rogério Ceni deixa o São Paulo”. A frase foge do comum. Por 25 anos, Ceni foi atleta do São Paulo e construiu uma história de idolatria com o torcedor. Por 6 meses, Ceni foi o técnico do São Paulo. Não houve construção neste período, que integra uma era em que o clube passa por destruição. Diretoria, Ceni e atletas são os personagens de um capítulo diferente na história são-paulina. O dia em que Ceni foi demitido pelo São Paulo.

O primeiro culpado pela demissão é o próprio Ceni, claro. Seu grande erro for ter aberto mão de suas convicções para cair na mesmice dos técnicos brasileiros. Ao resolver buscar resultados e não um padrão de jogo que lhe agravada e agradava ao torcedor, Ceni trilhou o caminho dos mortais. O ídolo passou a ser criticado porque, dentro de campo, o São Paulo não produzia.

Quando começou o trabalho, a intensidade apresentada nos treinos chamava a atenção. Nos primeiros jogos, o desejo do seu time em atacar trouxe brilho aos olhos do tricolor. O torcedor, acostumado a títulos, é também um apreciador do bom futebol. Há anos não é visto no Morumbi um jogo bonito, plasticamente agradável. Ceni impôs este método, mas, sucumbiu à mesmice. A derrota por 3 a 0 para o Palmeiras na Allianz Parque foi determinante para o insucesso. Mais do que a tríplice eliminação.

Aliás, após aquele revés, Ceni começou a se preocupar com o discurso interno de que a defesa era um problema. Ao tentar tapar os buracos da zaga, tirou a força do ataque e o time inexistiu desde então. A condição de ídolo o sustentou por um período mais longo, mas, a situação beirava o irreversível.

OUTROS CULPADOS – Para piorar, o elenco oferecido à Ceni é desconexo. São apenas quatro laterais, sendo que os da direita não são bons, o reserva da esquerda sequer atuou (é fraco) e o titular da esquerda é um garoto, suscetível a má fases. No meio-campo, pela primeira vez desde Hernanes-Arouca, o elenco tem dois volantes com nome para ter sucesso. Repito, com nome, como foi Arouca. A armação tinha apenas em Cueva um personagem principal, mas, com lesões e convocações, o atleta não rende o mesmo que em 2016. No ataque, Lucas Pratto virou um Oasis. Tão surreal, que vive uma longa seca. Seus parceiros, Marcinho, Morato e Denilson são atletas de Série B, com perfil para, no mínimo, o banco de reservas. Isto tudo sem falar na defesa, que já teve 4 saídas desde o começo do ano e passa por constante reconstrução. Além de citar nomes que parecem não respeitar a instituição, como Wesley, Lucão e Wellington Nem. Caminham em campo ou colecionam erros.

A montagem do elenco, que, em boa dose, é uma culpa que precisa ser creditada também a Ceni, é o reflexo do desgoverno que está a direção são-paulina. O Tricolor, que apostou em um novato, agora tende a procurar um treinador experiente. Dorival Júnior é o nome mais atraente. Há ainda a opção de inovar mais uma vez e trazer o ótimo Reinaldo Rueda, comandante do Atlético Nacional multicampeão nos últimos três anos, mas que encontrou em Medellín um trabalho consistente feito por Juan Carlos Osorio (aquele!). Também se fala em Abel Braga, mas o técnico, queridinho de Leco, está empregado no Fluminense e não tem perfil de ‘quebrador de contrato’.

O problema é que a estabilidade está garantida para aqueles que erram há anos. Leco, que teve em Ceni um importante cabo eleitoral, é o comandante de uma diretoria que se acostumou a terceirizar a culpa. Desde 2009, quando o próprio Leco costurou a demissão de Muricy Ramalho, o São Paulo se transformou naquilo que tanto abominava, à época, em seus rivais. A diretoria triturou técnicos. Foram 16 nomes diferentes desde 2009. Apelaram a figuras de passagens anteriores interessantes, como Leão, Carpegiani, Paulo Autuori e próprio Muricy. Estrangeiros como Osorio e Bauza construíram perfis diferentes, mas saíram para selecionados nacionais sem a perspectiva de melhora. Ainda aconteceram apostas na base, como Baresi e Jardim, além de nomes de pouca rodagem, como Doriva.

Por mais que errem, os técnicos não são os protagonistas desta fase nebulosa. Desde 2009, quando o trabalho de mais de 3 anos de Muricy foi interrompido, o São Paulo foi campeão apenas uma vez: Copa Sulamericana de 2012. Pior do que isso, esta foi a única final de campeonato. A última decisão da Copa do Brasil foi em 2000, do Paulistão foi em 2003 e da Copa Libertadores em 2006. Ceni, vítima de seus próprios erros, é também vítima de um processo de ‘empequenamento’ pelo qual passa o São Paulo. Algo que já rondou o Corinthians e o Santos e esteve bem perto de dominar o Palmeiras. Algo que precisa ser exorcizado antes que outra fantasma assuma uma posição eterna nas alamedas do Morumbi…

ESTRANHO

A demissão de Ceni é tão estranha que causa mais empolgação aos rivais do que ao próprio torcedor são paulino. As reações nas redes sociais são de alegria por parte daqueles que muitas vezes foram maltratados pelos gols e defesas de um uma figura que defendeu um escudo só. O tricolor, além de torcer pelo sucesso de seu antigo goleiro no comando técnico, também sabe que a culpa não era só dele. Aliás, que os problemas no São Paulo vão muito além do campo e que a palavra rebaixamento é sim uma realidade que precisa ser zelada. Quanto ao futuro de Ceni, resta a certeza de que, se aprimorar suas convicções, poderá construir uma carreira ótima como técnico. Aprendeu, de maneira dura, que mais vale se manter preso às ideias do que aos resultados.  Fica também a interessante expectativa para que, agora desempregado, Ceni tenha o primeiro trabalho em um clube que não seja o São Paulo.

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