É possível elogiar a atitude dos jogadores do Mogi Mirim?

A campanha do Mogi Mirim na Série C é péssima. O clube é o lanterna do Grupo B, com 10 pontos. Mesmo sem o W.O do último sábado, briga apenas contra o rebaixamento. Esta é a meta desde que o campeonato começou. Mesmo com o W.O do último sábado, o time manteve a diferença de cinco pontos para o Bragantino, primeiro time fora da zona de descenso.

Bragantino (15 pontos), Macaé (12) e Mogi Mirim (10) são os favoritos à queda. Esta condição do Sapo passa pelo desempenho de jogadores e comissão técnica, claro. Mas, é sempre importante lembrar que a falta de planejamento é o fator maior. O Sapo estreou na Série C sem saber nem a cidade em que mandaria suas partidas. A diretoria negociou uma parceria com o Audax que nunca prosperou. O elenco foi montado às pressas e, repetindo a receita dos campeonatos disputados pelo presidente Luiz Henrique de Oliveira, o Mogi ficou fadado ao descenso.

Só que é preciso enaltecer que o grupo de atletas é brioso. Mesmo sem salários e com condições amadoras para trabalhar (como falta de alimentação adequada), o elenco se manteve firme nas 13 rodadas que disputou. Fez bons jogos que terminaram sem vitória, como diante do Botafogo-SP, em Mogi. Claro que há aqueles que ganharam reclamações dos torcedores, sobretudo por falta de qualidade técnica. Mas, a maioria reconhece que o elenco é lutador. E que não é culpado pelo momento do clube. Ao contrário.

E este espírito de união ficou evidenciado com o braço de ferro com a diretoria. Ao se recusar a entrar em campo, os atletas foram protagonistas de uma mancha histórica do clube. Uma mancha que não deve recair sobre os ombros deles. O elenco não é milionário. Não há salários de Neymar, Messi ou Cristiano Ronaldo. Muitos, aliás, recebem (ou deveriam receber) vencimentos iguais aos de trabalhadores tratados como comuns.

Os que estão em início de carreira ainda não construíram nem mesmo uma poupança e sofrem com a falta dos salários, um dos direitos universais concedidos aos empregados. Há casos de atletas que precisaram de ajuda de membros da comissão técnica para pagar contas domésticas. Há quem pertença à comissão e que também esteja em uma condição econômica dramática devido ao atraso.

Ao se negarem a entrar em campo, os jogadores do Mogi Mirim mostraram aos jogadores de outros clubes que não se deve temer pelas consequências de confrontar a chefia. O único responsável pela atitude dos atletas é aquele que não pagou o que devia aos atletas. Se a diretoria cumprisse com suas obrigações, o jogo teria rolado normalmente e, em caso de derrota por 3 a 0, poderia cobrar uma atitude daqueles que recebem e não produzem.

No Mogi quem produz não recebe e isto não é algo novo. A maioria dos atletas que jogaram pelo clube na Série C de 2016 entraram na Justiça e ganharam a ação contra o Mogi. O ressarcimento ultrapassa a casa dos R$ 600 mil. A nova leva de processos diz respeito aos jogadores que atuaram na Série A2 deste ano, que também ficaram sem receber em boa parte do torneio.

E aí cabe uma pergunta que todo jogador se faz e que a diretoria ainda não respondeu. Se a Justiça está à favor dos atletas, significa que eles realmente não receberam. E se eles não receberam, o que foi feito com o dinheiro proveniente da cota de TV para a Série A2 deste ano? São R$ 3 milhões. Aposto que há uma resposta para esta pergunta, mas, a falta de transparência faz muitas pessoas pensarem o que quiserem sobre o destino dos recursos.

Foto: Marcelo Gotti/MMEC

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