Fisio&Saúde: Inflamação na Coluna

Caroline Zacariotto Silva*

O conceito das espondiloartropatias soronegativas foi estabelecido em 1974, quando os pesquisadores ingleses Moll e Wright propuseram que se englobasse em um mesmo conjunto algumas doenças até então consideradas completamente distintas entre si, mas que, na verdade, apresentavam diversas características comuns. Tais características consideravam aspectos clínicos (dor axial inflamatória, associada à artrite, predominante em grandes articulações de membros inferiores, e entesopatias periféricas), radiológicos (sacroiliíte) e laboratoriais. Sendo que foram inclusos a espondilite anquilosante, a artrite psoriásica, a artrite reativa e a síndrome de Reiter, e as artropatias enteropáticas (associadas às doenças inflamatórias intestinais).

Nos últimos tempos o numero de pacientes com um provável diagnóstico vem aumentando, mas que não conseguem preencher os critérios diagnósticos para uma doença definida dentro do grupo, criou-se então o conceito das espondiloartropatias indiferenciadas.

As doenças crônicas, como as espondiloartropatias, na maioria das vezes causam um sentimento de desamparo e inutilidade mais assustador do que a doença em si. Deve-se realizar o seguimento dos pacientes e o tratamento de forma individual, caso a caso, já que a história natural da doença pode cursar com flutuações durante seu curso evolutivo. O médico deve considerar o impacto da doença para o indivíduo dentro de sua comunidade, com as devidas implicações no seu ambiente familiar e de trabalho, além dos aspectos sociais e financeiros. Apesar de inexistir, até o momento, um tratamento específico para a cura, deve-se ressaltar que os recursos terapêuticos disponíveis possibilitam, de um modo geral, um adequado controle da doença

A espondilite anquilosante (EA) é uma doença inflamatória crônica que acomete preferencialmente a coluna vertebral, podendo evoluir com rigidez e limitação funcional progressiva do esqueleto axial. Geralmente se inicia no adulto jovem (entre os vinte e quarenta anos), preferencialmente do sexo masculino, da cor branca.

Quando essa doença inicia-se na idade adulta (a partir dos 16 anos) costuma ter como sintoma inicial a lombalgia de ritmo inflamatório, com rigidez matinal prolongada e predomínio dos sintomas axiais durante sua evolução. Já quando é juvenil, manifesta-se antes dos 16 anos de idade, costuma iniciar-se com artrite e entesopatias periféricas, evoluindo (somente após alguns anos) com a característica lombalgia de ritmo inflamatório, sendo que esta costuma ter diagnóstico mais tardio, e muitos destes pacientes podem ser diagnosticados como artrite idiopática juvenil no início dos sintomas.

Inicialmente, o paciente espondilítico costuma queixar-se de dor lombar baixa de ritmo inflamatório, caracterizada por melhorar com o movimento e piorar com o repouso, apresentando rigidez matinal prolongada. A evolução costuma ser ascendente, acometendo progressivamente a coluna dorsal e cervical, contribuindo para o desenvolvimento da “postura do esquiador”, caracterizada pela retificação da lordose lombar, acentuação da cifose dorsal e retificação da lordose cervical (com projeção da cabeça a frente). O acometimento articular periférico caracteriza-se pela presença de oligoartrite e entesopatias. A oligoartrite predomina em grandes articulações de membros inferiores, como tornozelos, joelhos e coxofemorais. As entesopatias (inflamações nas inserções dos tendões e/ou ligamentos nos ossos) costumam ser manifestações iniciais na EA de início juvenil e acometem preferencialmente a inserção de tendão de Aquiles e a fáscia plantar.

Quando falamos de uma doença crônica, que pode gerar limitações e alterações físicas temos que lembrar primeiramente que esta pode apresentar uma questão psicológica importante, sendo essencial o acompanhamento deste paciente. Considerando o quadro físico observado nesta doença, inicialmente o paciente espondilítico deve ser informado que, embora a EA seja uma doença crônica, apresenta boas perspectivas terapêuticas atualmente. Deve-se realizar a fisioterapia, notadamente os programas de exercícios supervisionados, de maneira sistemática em todos os estágios da doença, já que os seus benefícios na prevenção de limitações funcionais e na restauração de uma adequada mobilidade articular somente são observados no período em que o paciente os realiza.

Nas próximas edições continuaremos a discutir outras doenças enquadradas nesse grupo.

*Caroline Zacariotto Silva é formada em fisioterapia na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e possui cursos de pós-graduação lato senso e especialização na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

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