O eterno ídolo

A terceira entrevista realizada por torcedores do Mandi que fazem parte do GAM (Grupo de Apoio ao Mandi), juntamente com a página do facebook “Torcedores do Mandi” (https://www.facebook.com/torcedoresdomandi), dentro do trabalho de resgatar a história do Clube Atlético Guaçuano, traz como personagem um eterno ídolo. Rinaldo Donizeti Corsete, ou melhor, Bilão, foi o atacante mais carismático a vestir a camisa 9 do Mandi.

Qualquer esportista guaçuano que viveu as décadas de 80 e 90 se lembra e com grande carinho deste centroavante “de oficio”, “fazedor de gols”, como se dizia antigamente.

ONDE COMEÇOU NO FUTEBOL?
Comecei no futebol jogando na base do Comercial de Ribeirão Preto em 1982, passando também pela base da A. A. Ponte Preta em 1983. Como não deu certo, voltei para Pirassununga. Um dia o Guarani F. C. de Campinas veio jogar em Pirassununga, fui bem no jogo e me levaram para treinar na base.

QUANDO VEIO PARA O MANDI?
Cheguei aqui em 1989 e depois ainda disputei as temporadas de 1991, 1992, 1994 e 1996

ALÉM DO MANDI, EM QUAIS OUTRAS EQUIPES VOCÊ ATUOU?
Guarani F. C., Capivariano F. C., Flamengo de Varginha, C. A. Pirassununguense, Lemense, União Agrícola Barbarense, C. A. Paranaense

QUAL FOI SEU GOL MAIS IMPORTANTE COM A CAMISA DO C. A. GUAÇUANO?
Com certeza foi o gol contra o Iracemapolense em 1992, estávamos perdendo (1 a 0) e eu empatei o jogo com um gol de cabeça. O empate nos garantiu o acesso.

QUAL SUA MAIOR CONQUISTA PELO MANDI?
O jogo do acesso de 1992 foi muito especial pra mim. O interessante, é que eu não queria vir para o Guacuano em 1992, mesmo depois de uma boa campanha em 1989 e 1990. É que em 1991 eu comecei a temporada com o União Barbarense, voltando para Mogi Guaçu para disputar a fase final do campeonato. Apesar de ter feito gols, não fui muito bem, não conseguimos classificar o Mandi e a torcida se revoltou contra todo o time e sobrou pra mim também, pegaram bastante no meu pé. Saí muito chateado com a situação. No inicio de 1992, comecei novamente no União Barbarense e estava indo bem por lá. O Luiz Carlos Martins e o Sebastião dos Anjos Queiróz, foram várias vezes atrás de mim, mas eu não queria voltar, achava que depois de três temporadas no Guaçuano, era hora de tentarem outro atacante, achava que eu não iria fazer diferença e realmente não queria voltar. Mas, na véspera do último dia do encerramento das inscrições o Luiz Carlos ligou na casa do meu irmão, pois eu não tinha telefone, disse que o Sebastião sabia que eu estava magoado, mas que tentou diversos jogadores, nenhum deu certo e algo dizia que tinha que ser eu o atacante do time, que ele estava sentindo que aquele seria o meu ano. Falei com meu irmão, que me incentivou a voltar e como já estava no término do meu contrato com a Barbarense eu voltei. Fizemos uma excelente campanha, chegou o jogo decisivo contra o Iracemapolense e de novo a responsabilidade caiu toda em cima de mim, os torcedores me encontravam e me diziam, “vamos lá Bilão, não podemos deixar acontecer como em 1991”, pressão total. No dia do jogo, teve um fato marcante, logo cedo, fui ali na pracinha do Cemitério, pra cima do Camacho, estava sentado num banco, passou um torcedor de carro, deu ré e me disse: “Vamos lá Bilão, boa sorte, o Guaçuano vai ganhar hoje e com um gol seu, a cidade gosta muito de você e nós confiamos em você!”. Eu voltei pro Camacho, quase que chorando, aquilo que o torcedor disse me deu muita força, me incentivou demais. No vestiário, antes do jogo, tanto o Sebastião quanto o Luiz Carlos também me incentivaram muito. O Sebastião chegou perto de mim e falou no meu ouvido: “lembra que te falei no telefone? Que esse ano seria seu? Eu torço muito pra todos, mas pra você em especial”. No jogo, sofremos um gol, mas eu tive a felicidade de empatar com um gol de cabeça, suficiente para nos dar o acesso. O grupo mereceu, era uma verdadeira família, desde o faxineiro até o presidente. Eu passei em vários clubes, em vários anos, mas 1992 pra mim foi uma benção, de coração mesmo.

CONTE-NOS FATOS CURIOSOS QUE VOCÊ PRESENCIOU NO MANDI.
O Luiz Carlos Martins, nosso treinador na época, era muito sério, gostava das coisas certas, mas de vez em quando os jogadores aprontavam com ele. Certa vez, íamos jogar numa quarta-feira, nossa concentração era no estádio do Camacho mesmo, numa área embaixo das arquibancadas. No nosso time havia vários jogadores que gostavam de um pagode e resolvemos chamar alguns moleques dos juniores que ficavam alojados no Camacho e pedimos a eles que quando o Luiz Carlos chegasse trazendo o lanche da noite, que dissessem que nós tínhamos ido a um pagode em Mogi Mirim. Ficamos todos escondidos na parte de cima da arquibancada. Quando o Luiz Carlos chegou e a molecada disse pra ele que havíamos ido a um pagode, o homem quase teve um infarto. Já falou pra molecada se preparar que eles iriam jogar no dia seguinte, que ia ligar para o presidente e pedir para mandar todo mundo embora, que aquilo não era papel de homem e falou mais um monte. Quando a coisa estava ficando feia, todo mundo apareceu. Nossa! Aí que ele ficou mais nervoso ainda, jogou todo o lanche em cima da mesa, saiu xingando todo mundo entrou no carro e foi embora do Camacho, voltando somente no dia seguinte. Ficou muito bravo, não levou a situação na brincadeira não, demorou pra ele sorrir de novo. Outro caso envolvendo o Luiz Carlos Martins aconteceu em 1989, tinha um zagueiro chamado Ivanildo, um carioca muito forte, não aliviava pra ninguém, batia mesmo. Em certo jogo ele levou o terceiro amarelo. Aí nos treinamentos da semana seguinte o Luiz Carlos o colocou pra treinar no time reserva, pois não ia jogar no jogo seguinte. Num dos treinamentos da semana eu e ele nos estranhamos, pois ele não queria saber, chegava forte mesmo. O Ramon que era preparador físico já veio e disse para o Ivanildo que se ele não parasse de bater o Luiz Carlos iria colocá-lo somente para correr em volta do campo. No intervalo do treino, a moçada chegou em mim e no Ivanildo e pediu para a gente encenar uma briga pra ver a cara do Luiz Carlos e da comissão técnica. Dito e feito, primeira bola que veio, enfiei no meio das pernas do Ivanildo, ele veio pra cima de mim e fui pra cima dele, o pessoal separando, o Luiz Carlos arregalou o olho, todo mundo saiu do banco de reservas e veio apartar “a briga”. Quando todo tudo mundo chegou, eu e o Ivanildo nos abraçamos e todos que sabiam do combinado caíram na risada. O Luiz Carlos ficou louco de raiva e até ameaçou nos mandar embora, foi muito engraçado.
Certa vez fomos jogar em São José dos Campos e o Silvinho(volante), que tinha as unhas do pé tudo podre, encravada, estava reclamando de muita dor nos dedos. Não lembro quem era o médico que nos acompanhou naquele jogo, e que nos vestiários, examinou o Silvinho e disse: “ou entra outro no lugar ou eu dou uma anestesia”. Todo mundo estranhou. Anestesia?!? E o médico disse “pode ficar tranquilo, o efeito mais forte demora”. O Silvinho tomou a anestesia e fomos para o jogo. No aquecimento o Silvinho começou a reclamar que o pé estava estranho. Na saída de bola no inicio do jogo, a gente tinha uma jogada ensaiada, tocavam a bola pra mim, eu recuava para o Silvinho e saia no pique e o Silvinho lançava a bola para o ataque. Fizemos isso, recuei a bola para o Silvinho e saí em disparada, só que a bola não veio. Olhei pra trás, o juiz parou o jogo, o Silvinho caído, todo mundo do lado dele. Ele foi chutar a bola e quando apoiou não sentiu o pé anestesiado e caiu. Foi só risada, inclusive na torcida. Foi dada nova saída de bola na lateral e o Silvinho sem sentir o pé, foi substituído.

O QUE VOCÊ ACHA DA TORCIDA DO MANDI?
Uma torcida sensacional, comigo, foi um casamento que deu certo. Nos clubes que passei foi a torcida que mais apoiou e a que eu tenho mais carinho é a do C. A. Guaçuano.

O QUE VOCÊ ACHA DA SITUAÇÃO ATUAL DO CLUBE?
Uma coisa que me deixa decepcionado é ver o Mandi parado, sem estar disputando qualquer divisão que seja do Campeonato Paulista. É muito triste pra gente que participou da conquista de um acesso e que sempre sonhou em ver o Mandi disputando as divisões maiores do Paulista.

E O EVENTO COMEMORATIVO AO ACESSO DE 1992?
O evento que a torcida fez em comemoração aos 25 do acesso, a campanha #voltamandi foi sensacional. Para nós jogadores que recebemos a homenagem, foi um presente de Deus, não tem dinheiro que pague. Para a cidade foi a lembrança de um clube que tem uma história muito bonita e que precisa voltar.

ATUALMENTE AINDA ESTÁ LIGADO AO MEIO ESPORTIVO?
Sim, atualmente trabalho na secretária de esportes de Pirassununga com alguns projetos sociais. Meu grande sonho é ainda voltar a Mogi Guaçu para trabalhar como gerente de futebol ou mesmo como treinador do Mandi. Estou me preparando pra isso, estive no União Barbarense por 4 ou 5 anos, fui treinador de todas as categorias de base e também auxiliar técnico geral, revelamos diversos jogadores por lá. Meu sonho é retornar. Mas mesmo que não volte como profissional o que eu quero é ver o Mandi novamente disputando campeonatos. Agradeço a todos os torcedores de Mogi Guaçu e direi sempre: minha segunda pele é o C. A. Guaçuano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *