É preciso um novo Paulistão para salvar os pequenos

É cada vez mais comum vermos em rodas de discussão de grandes veículos de comunicação, um desejo de cronistas pela extinção dos estaduais. O entendimento quase comum é de que o torneio só atrapalha o calendário. Esta uma visão egoísta, de quem pensa apenas nos clubes grandes e ignora a tradição de agremiações de menor porte, mas que também nutrem histórias riquíssimas.

O formato atual do Campeonato Paulista, por exemplo, já parece uma forma de segregação executada pela Federação Paulista de Futebol com a assinatura dos próprios clubes. A entidade está cada vez mais milionária, assim como a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). E os clubes de pequeno porte econômico seguem caminho oposto. É claro que não podemos ignorar as más gestões que muitas destas agremiações tiveram. Por incompetência de uns e pela má fé de outros, instituições como União São João de Araras, que já disputou a elite estadual, estão com as atividades paradas. Mogi Mirim, Paulista de Jundiaí e São José ainda respiram, mas estão na última divisão estadual.

O enforcamento proporcionado pela FPF com a redução de clubes por divisão é quase um atentado aos clubes de menor porte. A Série A1 ficou restrita a 12 vagas, já que é quase impossível imaginar Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo fora da elite. Na Série A2, mais 16 vagas, assim como na Série A3. Já a Segunda Divisão, que deveria urgentemente ser chamada de Série A4, é liberada para qualquer clube, desde que cumpram os requisitos exigidos pela FPF, como estar em dia com a filiação e com estádios liberados para jogo.

O grande problema é que a distância para a elite ficou muito grande. O clube que disputar a Segunda Divisão em 2019, precisará ser competente em três torneios seguidos para chegar, em 2022, na Série A1. Como motivar uma cidade a abraçar seu clube de futebol, com uma distância tão grande para a elite? É por isso que o Blog propõe uma mudança no formato do estadual. Sem prejudicar os chamados ‘Grandes’ e proporcionando melhores condições desportivas para os times de menor porte.

União São João já teve craques como Roberto Carlos e Velloso e hoje está inativo por conta de dívida milionária

Usando a configuração atual, imaginamos a Série A1 mudando de nome para Primeira Divisão e com 24 times. Na primeira fase, os oito piores times do ano anterior disputariam uma fase preliminar ao lado dos oito emergentes da Segunda Divisão. Os oito melhores do ano anterior esperariam e começariam a jogar o campeonato apenas no final de fevereiro, dando agenda para que os ‘Grandes’ possam fazer a pré-temporada de forma correta, excursionar para ganhar dinheiro e o que mais for conveniente.

Após uma primeira fase em que os 16 clubes seriam divididos em dois grupos de oito, com sete rodadas, os quatro melhores de cada chave avançariam para a segunda fase, juntos aos grandes. Em um exercício de imaginação, os oito times que ficariam no aguardo para a segunda fase seriam: Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Novorizontino, Bragantino, São Caetano e Botafogo-SP. Ou seja, os oito melhores da Série A1 de 2018. Na preliminar da Primeira Divisão de 2019, as chaves ficariam assim:

GRUPO 1

Ponte Preta

Votuporanguense

Taubaté

Oeste

São Bernardo

Santo André

Linense

Ituano

GRUPO 2

Mirassol

São Bento

Red Bull Brasil

Ferroviária

Guarani

XV de Piracicaba

Nacional

Sertãozinho

Ao final da fase preliminar, os quatro primeiros de cada chave avançariam, formando as chaves da fase de classificação desta maneira, por exemplo:

GRUPO A

Corinthians

Santos

São Caetano

Botafogo-SP

Guarani

Nacional

Votuporanguense

Santo André

GRUPO B

Palmeiras

São Paulo

Novorizontino

Bragantino

Ponte Preta

Ituano

XV de Piracicaba

Sertãozinho

Nesta fase, os oito times se enfrentariam em turno único dentro das chaves, com os quatro melhores de cada avançando para as quartas de final e garantido vaga na fase de classificação do ano seguinte. Se por um acaso um destes times grandes for incompetente para ficar entre os quatro do seu grupo no ano anterior, pagará com a presença na fase preliminar da temporada seguinte. Simples assim, meritocracia. O mais importante neste cenário é que 16 clubes entram na temporada com a expectativa de, naquele ano, brigar por uma vaga na fase final da Primeira Divisão e de enfrentar ao menos dois grandes clubes. Com apenas sete rodadas na primeira fase, e jogos únicos nas quartas, semifinal e final, cada time grande faria, no máximo, 10 partidas no estadual.

E A SEGUNDA DIVISÃO?

Não haveria mais Série A3 ou a Bezinha. Todos os outros clubes disputariam a Segunda Divisão. Em 2019, aqueles que estivessem em condição de disputa, garantiriam sua vaga para as temporadas seguintes, sem rebaixamento. Assim, levando em conta os clubes que disputaram os campeonatos em 2018, teríamos oito remanescentes da extinta A2, mais os 20 clubes que jogaram a Série A3 e os 40 times da Bezinha. Ou seja, teríamos 68 vagas. Para que o campeonato tenha seis grupos com exatamente 12 times em cada, vamos inserir aqui o Clube Atlético Guaçuano (puxando a sardinha para minha região, claro), o União São João de Araras (pela história, apesar das poucas chances de retorno das atividades tão cedo), o Jaboticabal e o Araçatuba.

A competição teria início em fevereiro, com 22 rodadas por grupo (turno e returno dentro das chaves). Os cinco melhores de cada avançam de forma direta,  além dos dois melhores sextos colocados por índice técnico. Na segunda fase, quatro chaves com oito times em casa, seguindo sorteio direcionado pelo coeficiente técnico. Nesta fase, mais sete partidas para cada agremiação. Os quatro melhores avançam para o mata-mata, no sistema de ida e volta. Logo nas oitavas de final, já seriam definidos os oito clubes que disputarão a fase preliminar da Primeira Divisão do ano seguinte. Na sequência da eliminatória, a briga fica pelo título. Dentro os participantes, o time que parar na primeira fase terminará o ano com 22 jogos profissionais disputados. Já os finalistas, farão 37. Um calendário que preencha a temporada inteira, proporcionando aos mais competentes dentro de campo, a chance de, no ano seguinte, estar frente a frente com os ‘Grandes’.

O que falta hoje para estimular os clubes de menor porte é mais do que dinheiro e cotas. Faltam a eles vender a expectativa ao seu torcedor de que, no ano seguinte, poderão estar recebendo, em sua cidade, um clube grande como o Corinthians. Ou fazer uma excursão para ver seu time jogar na capital. Aos competentes no marketing e gestão, uma temporada cheia pode proporcionar a comercialização de carnês de ingresso e a fidelização através de projetos de sócio-torcedor.

Todo o exercício aqui exposto é de imaginação. Nem acredito que algo assim sairá do papel, já que quem manda no futebol não parece disposto a contribuir para a salvação de clubes à beira da morte. É melhor deixar morrer aqueles que geram dívidas ou dor de cabeça à Federação. Mas, não custa tentar mexer. O futebol paulista clama por uma solução para suas instituições históricas que se afogam na crise e, por bem ou por mal, a Federação é fundamental neste processo. Ela nasceu dos clubes e depende deles para a sobrevivência, o que custa se esforçar para fazer um futebol melhor em todo o estado?

Na próxima postagem do Blog, mais uma ideia maluca. A Copa Estado de São Paulo, com 96 participantes.

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