Um homem e um destino: a trajetória de Gilson Diniz

Pelé é a eterna referência como melhor jogador de futebol na história. No basquete, poucos contestam que Oscar é o maior de todos os brasileiros. Assim como, é quase inconteste, que Ayrton Senna é o grande piloto de Fórmula-1 que já nasceu aqui no país. O mesmo vale para Éder Jofre para o boxe. Todos já tiveram filmes ou documentários produzidos para contar a sua história. Quando o assunto é cavalo de rédeas, o grande nome da história é Gilson Diniz.

Mais do que isso, mesmo aos 59 anos, ele segue no auge. Nascido em Coromandel, no Triângulo Mineiro, se mudou ainda garotinho para Catalão-GO. No serrado, viveu em outras cidades e escreveu uma trajetória vitoriosa em uma das modalidades equestres mais respeitadas no mundo. Desde 1998, Gilson Diniz fixou residência em Itapira, de onde não pretende sair. Diz orgulhoso ser filho de Coromandel, agradece toda a criação que teve em Goiás, mas, Itapira é o seu recanto. O seu rancho.

Ainda que seja o maior em sua área, poucos conhecem a sua história. Em entrevista exclusiva concedida ao jornal GRANDE JOGADA, o treinador abriu as portas de casa e o coração. Gilson não é daqueles de gargalhada fácil. A não ser quando está com os netos, como neste flagra, quando a reportagem o entrevistava e a pequena Liz Diniz, sua neta mais nova, chegou de surpresa em sua casa.

O avô da bebê tem uma trajetória difícil de ser resumida, tamanha a relevância de seus feitos. Hoje, Gilson Diniz é uma marca mundialmente reconhecida. Maior campeão do campeonato Potro do Futuro, considerado ‘a Copa do Mundo’ da modalidade, ele ostenta cinco conquistas e 11 vice-campeonatos, marcas que, somadas, dificilmente serão alcançadas. Há também uma infinidade de troféus em outras competições, como as organizadas pela ANCR (Associação Nacional do Cavalo de Rédeas) e pela ABQM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha), além de feitos internacionais.

Mas, nem sempre foi assim. “A família do meu pai tinha terras, mas, quando a minha avó morreu, com todo mundo quebrado, ferrado e tivemos que mudar de Coromandel”. A pequena cidade fica perto da divisa com Goiás e foi para lá que a família migrou. A experiência os levou afazer ‘queijo meia’ em Catalão-GO, a primeira das cidades em que Gilson viveu ‘no Goiás’.

A história com cavalos começou anos depois. Em uma família com quatro irmãos (perdeu um ainda pequeno), ele era o mais velho e morava em um retiro de uma fazenda que ficava a mais de 12 quilômetros da escola. E o cavalo era o meio de transporte. “Tinha muito morro, muita serra. E nessa fazendinha, tinha dois cavalos só. E eram de lida de gado, não dava para três crianças irem na escola e deixar a fazenda sem eles. Minha irmã às vezes ia em um e eu me irmão íamos a pé”.

Fã de filmes de cowboys, Gilson nutria ali o sonho de ser uma espécie de domador de cavalos. Aos poucos, foi tendo a oportunidade de lidar com os animais que tanto gostava. E mais. Já entendia que, ao contrário do que era feito à época para domar os cavalos, existiria uma forma diferente, mais racional. Já com 19 anos, morava em Bonfinópolis-GO e, certo dia, foi a Silvânia-GO e na fazenda de um dos donos da que ele e a família residia, conheceu um treinador de cavalos. “O cara me elogiou para a patroa e falaram com meu pai, mas ele não queria de jeito nenhum, mesmo com eles falando que eu levava jeito”. Anos depois, não teve jeito. O treinador foi embora e o primeiro nome que veio à mente dos fazendeiros foi exatamente o de Gilson. “Me chamaram e perguntaram se não queria fazer um curso em São Paulo para ser treinador e aí não teve jeito. Eu tinha que aproveitar a oportunidade. Eu já estava metido a ‘hominho’, recém-casado e vim fazer um curso em Garça-SP”.

Depois de anos, foi a primeira vez que saiu de Goiás. Com José Eduardo Borba, famoso no meio até hoje, dando curso de doma racional, retornou para a fazenda com a mente aberta. “Eu vi que tinha que mudar tudo o que tinha aprendido com o meu pai. Ele falou algo, inclusive, que eu levo até hoje para os meus cursos. Que o cara para treinar cavalo não precisa ser um gênio, basta ele ser um pouquinho mais inteligente que o cavalo que ele monta”.

Após atuar na área e até sair dela, trabalhando como auxiliar de veterinário, viu seu patrão quebrar e a necessidade de partir de vez para o que ama. “Em 1983, fui chamado para trabalhar dentro de um haras em Aparecida de Goiânia, e o sócio deste rapaz estava nos EUA. Quando ele retornou, Gilson estava já bem capacitado. Mas, ele era travado e não executava o trabalho como deveria. Até que um dia a sorte foi lançada e ele estava pronto para agarrar a chance.

Algumas éguas andavam derrubando o patrão, que as deixou de lado. E Gilson mostrou sua capacidade. “Um dia ele estava conversando com o pessoal lá e falou que as éguas não tinham jeito. Eu disse não, elas estão mansas. Ele, como assim? E eu disse que estava montando elas a noite e ele quis que eu mostrasse. Arriei as éguas, mostrei para os caras e ficaram encantado”. Daquele dia em diante, mudou de figura. Passou a montar com o patrão e os cavalos começaram a se destacar em provas de laço.

A escalada rumo ao domínio nas rédeas

PENTA | Gilson tem cinco títulos nas provas de Potro do Futuro, a Copa do Mundo da modalidade | Foto: Felipe Ulbrich

Desde o início, o estilo charmoso das provas de rédeas chamou a atenção de Gilson. A vida o manteve na estrada. Foi parar em Trindade-GO, onde seus cavalos já se destacavam em exposições. “Montei dois cavalos que já eram diferentes e os primeiros a espinar, a dar aquele rodopio, como na patinação no gelo, foram os meus. Ninguém nunca tinha visto aquilo em Goiás, era algo raro e aí a coisa começou a alavancar”.

Exatamente neste local, conheceu outro treinador que ajudou a lapidar seu talento. “Havia um rapaz que chamávamos de Billy, o Sizefredo Cintra. Esse cara ia muito para os EUA e, sei lá, coisa de Deus, ele foi com a minha cara, o meu jeito de mexer e toda vez que ia para Goiânia, ele perdia meio dia para treinar comigo e, através dele, adquiri conhecimento para seguir a carreira”.

Até que em 1986, foi chamado para trabalhar no famoso Rodo Haras. Um deputado da época, muito rico, queria contar em sua fazenda com os melhores treinadores de cada modalidade do ramo equestre. Gilson já havia tido a primeira chance de não trabalhar de empregado, mas a proposta era boa, tentadora. Nesta fazenda, haviam acabado de importar uma tropa de cavalos dos EUA e ele aceitou.

O treinador estava cada vez mais perto da capital, Goiânia. A cidade era Santo Antônio do Goiás e ele teve a primeira oportunidade de competir. A pressão era grande, já que o nome como treinador estava consolidado. Pouco mais de um ano depois, já em 1988, em Goiânia, lá estava Gilson competindo pela primeira vez. E, de cara, vencendo, montando um cavalo appaloosa. “Eram umas oito etapas e ganhei todas. Mas, eu pensava, que estava fácil, porque era appaloosa e não o quarto de milha, que tinha mais concorrente”.

Chegou o ano de 1989, e a vida do treinador mudou de vez. Em Curitiba-PR, disputou o nacional com cavalos quarto de milha e seu primeiro Potro do Futuro. No longo caminho feito em um ônibus adaptado, que carregava cavalos, pensava, iludido, em ficar entre os 10 primeiros. “Eu era um desconhecido, mas, fiquei em segundo no nacional e em segundo no Potro do Futuro. Nem eu acreditava naquilo”.

A autoconfiança aumentou e havia a certeza. Estava pronto para fazer carreira. Ganhou outras provas, fez uma graninha, montou o próprio negócio e em 1993, teve a grande afirmação. Ganhou dois nacionais, júnior e sênior (por idade do cavalo), no mesmo evento e, mais uma vez, vice do Potro do Futuro. “Aí foi aquilo, aí o cara é treinador”. O primeiro título no Potro do Futuro veio em 1995, em Sorocaba. Enfrentou concorrentes experientes, com bagagem internacional e se colocou entre os grandes. Hoje, é o recordista, sendo campeão também em 2010, 2012, 2013 e 2017.

Aos 59 anos, voltou a ser vice-campeão neste ano e mesmo perto do festão de 60 anos, garante que não vai parar tão cedo. Segue aprimorando os conhecimento e também passando para os outros. É hoje um dos treinadores mais renomados do planeta quando o assunto é cavalo de rédeas, com cursos concorridos em países como Argentina, Uruguai e Chile. Mantém uma rotina de atleta, cuidando do corpo, sobretudo, quando se aproximam as provas. Até porque, não concorre em uma categoria master. Os rivais são garotos promissores ou adultos já consolidados. Entre eles, porém, está o menino que só queria domar cavalos e ajudar os irmãos a atravessar a serra rumo a escola. Ele cresceu. E como nos filmes de faroeste em que assistia, se tornou um destes homens com um destino. Gilson Diniz é uma marca mundial no ofício em que se propôs.

Itapira: um rancho em seu novo lar

ALEGRIA | Ao lado de uma das netas, Gilson Diniz conta um pouco mais sobre a vitoriosa trajetória

Em 1998, Gilson Diniz já tinha um nome respeitado em seu meio. Foi convidado a tocar um projeto em Amparo-SP e, pela proximidade com as cidades em que ocorriam as competições, resolveu arriscar. A aventura durou pouco tempo, mas ele e a família não queriam mais sair da região. Um dia, foi a Santo Antônio de Posse pela estrada vicinal. Ia conversar com um amigo, corretor de imóveis e perdeu a viagem.

Na volta, pela vicinal, passou por um trecho próximo ao bairro Cercado Grande. Viu uma área, ficou curioso. Perguntou a um morador se sabia se estava à venda e recebeu o sinal positivo. Foi o suficiente para ir atrás do dono e fechar o negócio em três dias. Não que tinha dinheiro para construir tudo o que precisava. Mas, como em toda a vida, o destino estava traçado.

Aos poucos, o Rancho Diniz foi erguido e se tornou referência, assim como o dono. Os filhos, Gisele, Gilson e Giovana, viveram a vida igual a do pai. Se a mais velha não fez carreira, os outros dois estão na ativa até hoje. Gilson Filho, aliás, também fez seu nome e, constantemente, dá cursos no exterior. Nas provas, é concorrente do pai. Em 2017, estava com o título na mão no Potro do Futuro, mas o pai, no final, levou a melhor.

“Lá dentro não tem essa de pai e filho não”, brinca Gilson. Itapira se tornou o lar de toda a família. No Rancho, ele aprimora os treinos e também repassa o conhecimento a alunos. Alguns, famosos, como o lutador de MMA e campeão do UFC, Minotauro. Escritores de novela, jornalistas e cantores estão na lista de clientes. E também de amigos. Foi logo após uma reportagem produzida pelo Fantástico, com os cantores que compunham o grupo Amigos (Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé di Camargo e Luciano) que veio a pior fase da vida.

Em 30 de maio de 1999, foi baleado, próximo ao antigo Posto Penha. A vida passou por um fio, mas o destino. O destino estava traçado. Havia muita história a ser traçada e, hoje, Gilson Diniz leva o nome de Itapira para os quatro cantos do mundo. Quando se fala em rédeas, os fãs da modalidade, que leva, anualmente, mais de 6.000 cavalos para o Potro do Futuro, lembram da cidade que Gilson escolheu para viver.

Não que o passado tenha ficado para trás. Como encanta a canção de um conterrâneo, lá de Coromandel, o compositor Gerson Coutinho da Silva, o Goiá, “que saudade imensa do campo e do mato”. No Rancho, os sons não negam. Os pássaros, cavalos e cães garantem a manutenção do cenário bucólico, que fez parte de toda a vida deste mineiro de nascimento, goiano de criação e itapirense de coração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *