O pagador de promessas e multicampeão Amaral

Centenas de crianças caminham pelas ruas do bairro do Tucura, na zona Norte de Mogi Mirim. Assim como qualquer região simples, são muitas histórias de superação a serem contadas. E muitos sonhos. Porém, para chegar lá no alto e se transformar em uma estrela, é necessário ir à luta. Amaral já foi uma dessas tantas crianças. Nesta semana, no dia 28, celebrou 35 anos de uma vida que lhe deu muito mais do que pediu. E é exatamente por isso que ele faz questão de não fazer luxo com nada e ainda manter as raízes.

Amaral começou a jogar bola com seis anos, na quadra do Tucurinha e da Escola Ernani Calbucci. Ainda nessa época, se encantava com as transmissões de rádio, em que ouvia os jogos do Corinthians, imaginando, um dia, ser um daqueles personagens. A trajetória rumo à concretização do sonho começou através das escolinhas de futebol de base da cidade. “Naquela épica não tinha escolinhas particulares. Cada bairro tinha sua escolinha, um projeto que era guiado pelo antigo Deretur (Departamento de Esporte e Turismo). O diretor era o Henrique Rosa, hoje na Escola do São Paulo e que considero o maior diretor de esporte da cidade”, contou Amaral.

Representando a bandeira da cidade, disputou torneios em cidades do Paraná, de Minas Gerais e outros estados, mas, em 1997, durante um jogo em Santa Bárbara d’Oeste, chamou a atenção do Lousano Paulista, de Jundiaí. “O treinador gostou de mim e fui fazer testes, no começo de 1998. Treinei só dois dias, fiz dois coletivos, acabaram gostando e ali começou a minha carreira”, relembra o jogador.

Em Jundiaí, viu o clube mudar de nome para Etti e depois voltar a se chamar Paulista. Na base, treinou com atletas como o goleiro Victor, hoje no Atlético-MG e Réver, hoje no Flamengo. O time chegou a ganhar o Paulista Juvenil ao bater o Palmeiras no Palestra Itália e os garotos subiram para o profissional. O ápice veio em 2005, quando o Paulista conquistou a Copa do Brasil. “No começo, ninguém acreditava, nem nós”, recorda. Porém, o grupo foi crescendo diante das classificações. Eliminou Juventude e o Botafogo e a confiança cresceu. “Só que a gente olhava a tabela e via confrontos possíveis com times como Internacional-RS, Figueirense e Cruzeiro. Era só bucha”.

Um a um, os gigantes caíram diante do Paulista de Amaral & Cia. Na final, uma verdadeira batalha contra o Fluminense. “Quase não chegamos no horário do jogo em São Januário. A torcida quebrou nosso ônibus, com tijolo, pedra. Em certo momento, na Avenida Brasil, no caminho para o estádio, criaram uma barreira e tivemos que abaixar, ir deitado no corredor”, contou Amaral. No campo, o empate em 0 a 0 com o Flu garantiu a taça após o triunfo de 2 a 0 em Jundiaí.

O Paulista ganhou a vaga na Libertadores de 2006 e caiu na chave do River Plate. Após perder na Argentina, o Galo deu o troco no Jaime Cintra, com direito a um golaço de fora da área do volante. Assim como os colegas, chamou a atenção de clubes grandes e se transferiu para o Vasco da Gama. No cruzmaltino, jogou ao lado de lendas como Romário e esteve no jogo do ‘Gol 1.000’ do Baixinho.

Em 2008, foi emprestado ao Grêmio, clube pelo qual guarda enorme carinho. “Na verdade, os quatro clubes, profissionalmente, foram muito bons para mim. A minha história de vida, as amizades, os lugares que eu vivi. Só que eu, particularmente, não peguei alguns destes clubes, em boa fase. Peguei muitas vezes, em momentos conturbados. Mas, o time que eu tenho assim um carinho, na verdade, era o Grêmio”.

O jogador chegou ao Tricolor Gaúcho logo após a eliminação na Copa do Brasil pelo Atlético-GO e brigou pela taça da Série A até o final. “Fomos líderes do Brasileirão até as últimas rodadas, quando perdemos o título para o São Paulo. Tenho esse carinho pelo Grêmio por tudo que fez por mim. Tanto financeiramente, porque no Vasco, estava em dificuldade, com 3 a 4 meses sem receber e com um filho recém-nascido. “Talvez, se estivesse no Vasco, eu não conseguiria cuidar e o Grêmio surgiu me dando essa chance”.

No profissional, Amaral teve a missão de marcar craques do quilate de Petovic e Ronaldinho Gaúcho e guarda grandes lembranças destes momentos. “Cara, o Pet, para mim, era sensacional. Um cara ambidestro, que batia muito bem na bola, era forte, desvencilhava da marcação, era sensacional. E o Ronaldinho? Esse aí não tenho nem palavras para descrever. Quando cheguei perto as duas vezes, jogando e depois junto em churrasco, sensacional. Dentro de campo, a maneira como ele escondia a bola e o quanto era humildade, aquilo era demais. Para mim foi e sempre será um dos maiores do mundo”.

Entre os gênios com quem dividiu campo, um deles, foi seu companheiro. O holandês Clarence Seedorf foi companheiro de Amaral no Botafogo-RJ e se tornou um dos grandes companheiros no mundo da bola. “Tenho ele como um grande irmão e um líder. Cuidávamos dos moleques que subiam dos juniores. A gente treinava muita falta junto, demais aquele cara. É uma estrela que vai brilhar sempre”.

 

AMADOR

Em 2016, Amaral encerrou a carreira profissional e começou a pagar promessas. O retorno às origens acrescentou ao seu currículo experiências bem diferentes das vividas em gramados japoneses, como na época em que defendeu o Cerezo Osaka, ou pelas tantas camisas em que envergou pelo Brasil. No Amador, ele virou uma referência. “Sou um cara realizado. Depois deparar, ver a felicidade de alguns garotos de alguns jogadores do Amador, de estar jogando ao meu lado ou contra, isso é muito legal”.

Amaral sabe que a carreira profissional traz respeito. Mas, ressalta que isso não o torna melhor do que ninguém. Em campo, o deseja transmitir aos colegas e rivais é a importância da esportividade. Não que isso tire dele a sede por taças. Pelo contrário. No último dia 25 de novembro, faturou a Primeira Divisão do Campeonato Amador Regional de São João da Boa Vista pelo Vila Nova. Neste ano, também faturou o título da Copa Society, pelo Victória e da Primeira Divisão de Mogi Guaçu, pelo Itaqui.

Porém, uma das taças que marcou em 2018 foi conquistada no fim de outubro, pela Tucurense. No clube do bairro em que nasceu e criou raízes. Foi o segundo título pelo clube, já que em 2017, conforme promessas feita à diretoria da Veterana, retornou ao Amador para defender o time do Tucura. “Eu sou um morador do bairro. Minha família toda reside no Tucura. Meus amigos e familiares são Tucurense. Eu fui ver quando jogava (profissionalmente), sempre ia ao campo quando estava de férias e minha promessa de jogar pelo clube foi cumprida”.

A alegria de faturar um inédito tetracampeonato consecutivo e o 16º título municipal da Veterana está estampada no rosto do meio-campista. Porém, em 2019, será a hora de pagar outra promessa. “Ano que vem jogarei na Vila Dias devido a uma promessa feita para o presidente, o Galileu (Araújo) e o pessoal da diretoria da Vila. Por serem meus amigos e também ser umas das maiores forças da cidade junto com a Tucurense”. A Vila estará na Segunda Divisão, após o acesso conquistado na Série C deste ano. Já em 2020, voltará para casa e fechar um ciclo de vitórias. “Retorno para a Tucurense para encerrar a minha participação no Amador de Mogi Mirim”, promete o pagador de promessas, Amaral.

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