Acervo histórico: 65 anos de futebol profissional

Conhecer e valorizar o passado é item obrigatório de uma comunidade. Hoje, quando falamos em futebol profissional na Baixa Mogiana, automaticamente, lembramos do Mogi Mirim Esporte Clube, Esportiva Itapirense e Atlético Guaçuano. São estes os últimos clubes que representaram as suas respectivas cidades em competições oficiais. Porém, a região contou, em toda a sua história, com 10 agremiações com passagem profissional.

Antes de entrar neste processo é preciso entender que a profissionalização do futebol paulista começou apenas na década de 1930. O primeiro gol ‘remunerado’ da história foi do lendário Arthur Friedenreich, que, no ano anterior, fez parte do Batalhão Esportivo montado em Eleutério, distrito itapirense, durante a Revolução Constitucionalista.

Anos antes, o futebol na região já tinha destaque. As páginas amareladas dos jornais que integram o acervo de locais públicos, como a Biblioteca Municipal de Mogi Mirim e o Museu Histórico de Itapira, indicam atividades futebolísticas no início do século 20. Em 1904, dois clubes de Mogi Mirim discutiram a fundação de uma liga, com a presença de agremiações de Itapira, Casa Branca, Amparo e Campinas. Os jogos seriam no ‘ground’ do Mogy-mirim Sport Club, indicando o que o historiador mogimiriano, Nelson Patelli Júnior já crava há anos. O Sapão nasceu no início do século e apenas foi reorganizado em 1932. Uma história que fica para os próximos capítulos.

Fato é que, muito antes dos times profissionais, agremiações como a Associação Mogyana de Esportes Athleticos, o Sport Club Guassuano e o Sport Club Itapirense já movimentavam a região. O SC Itapirense, que chegou a ser presidido pelos ilustres Mário da Fonseca e Francisco Vieira, disputou  a Divisão do Interior da Liga de Amadores de Football (LAF) em 1927 e em 1928.

Em tabela publicada pelo jornal Correio Paulistano, em 1927, o SC Itapirense aparece na ‘Zona Mogyana’ ao lado de Ponte Preta, de Campinas, Atlética Pinhalense, Amparo FC e SC Sanjoanense. Em suma, este era o ápice para a gigante maioria dos clubes do interior, que viviam de amistosos e de ligas regionais. A abertura das entidades, como a própria LAF, ou a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), era mínima e poucos eram os clubes interioranos que jogavam a elite.

Em 1933, por exemplo, um reorganizado Mogi Mirim Esporte Clube foi campeão do Interior, sua primeira conquista em nível estadual. Com a profissionalização em 1933 e a fundação da Federação Paulista de Futebol em 1941, a atuação dos clubes interioranos ampliou. Agremiações que defendiam o amadorismo saíram de cena e novas entidades começaram a ser criadas em todo o estado.

 

PROFISSIONAIS

 

Em 1954, a região teve a primeira experiência profissional. E, em dose dupla. A Sociedade Esportiva Itapirense, fundada em 1947 e o Mogi Mirim Esporte Clube, entraram na Terceira Divisão e chegaram a se enfrentar, com vitória do Sapão, por 3 a 2, sobre a Vermelhinha, no estádio Vail Chaves. Os rivais integravam o Grupo 2, ao lado de Velo Clube, de Rio Claro, Ferroviária, de Pindamonhangaba, Rigeza, de Valinhos e Cetelense, de Taubaté. Nenhum dos clubes prosperou na competição.

Nos anos seguintes, a Esportiva não manteve como rotina a atividade profissional, atuando apenas em 1957 e em 1969, quando foi campeã, mas, também teve seu último ano até a retomada, em 2005. O Mogi seguiu no âmbito profissional até 1958, ano de estreia de Mogi Guaçu. A primeira agremiação guaçuana a atuar profissionalmente foi o Cerâmica Clube. Fundado em 1948, o clube mandava suas partidas no antigo campo da Villa Martini. Em 1958, chegou a avançar para a segunda fase, quando integrou uma chave com Estrela, de Piquete, Frigorífico, de Cruzeiro, Legionário, de Bragança Paulista, Lapeaninho, de São Paulo e Velo Clube, de Rio Claro. O Cerâmicaainda atuou entre 1961 e 1965, seu último ano no Paulista. Neste mesmo período, em Itapira, surgiram mais duas agremiações que se aventuraram no meio profissional.

Em 1964, estreou a Sociedade Esportiva Irmãos Nogueira. A agremiação jogou a Quarta Divisão nas duas temporadas. Em agosto de 1965, foi protagonista do último jogo do antigo estádio Francisco Vieira. O antigo campo dos tempos em que o Parque ainda nem se chamava Juca Mulato teve seu último ato esportivo em 17 de agosto de 1965. Duas semanas depois, a Irmãos Nogueira também foi a primeira equipe itapirense a atuar profissionalmente no novo Chico Vieira, que é, até hoje, a grande casa do futebol itapirense.

1965, porém, foi o último ano profissional da Irmãos Nogueira. No ano seguinte, a Federação Paulista realizou uma ampla abertura para as equipes se profissionalizarem e a cidade foi representada pelo Itapira Esporte Clube. Fundado em 1962, parou as atividades no ano seguinte e retornou em 1966, com José Vieira Camargo como presidente. A campanha não foi das melhores e o clube acumulou mais derrotas que vitórias.

Enquanto isso, em Mogi Guaçu, o Grêmio Esportivo Guaçuano, fundado em 1960, assumiu o papel que antes fora do Cerâmica. O ‘Greminho’ disputou o estadual entre 1969 e 1974, criando rivalidade com Esportiva, Itapira Atlético Clube e o Mogi Mirim. Em 1971, chegou a ser campeão dentro da sua série, um dos maiores feitos da história do antigo Alvinegro.

Já o Sapão retornou em 1970, com uma verdadeira profissionalização do seu futebol. A cidade chegou a cogitar a presença da Peixe FC ou da Tucurense, mas, foi o MMEC mesmo que envergou o nome da cidade. Em 1985, atingiu a maior glória de um clube da região até então. Conquistou o acesso e chegou à elite estadual. Desde então, a agremiação jamais esteve ameaçada de paralisar seu departamento de futebol profissional, algo que assombra nos dias atuais (leia mais na página 7).

De volta ao passado, em 1971, nasceu em Itapira o IAC. Em meio à ressaca pela desistência da Esportiva e com uma base formada pelo antigo XI de Agosto, clube amador, o Itapira Atlético Clube iniciou uma trajetória que, entre 1973 e 1989, só não teve atuação profissional em 1977. Neste ano, o time que representou a cidade foi a Fazenda Santa Bárbara. O clube contava entre seus diretores, com antigos atletas, como Piquica e, no elenco, com figuras como Boca, de Mogi Mirim, e Pirulito, Kalu, Mineiro e até Paganini, atual prefeito de Itapira. A passagem durou um ano.

Em 1978, foi a vez da aventura relâmpago do Clube Atlético Mogiano, na Terceira Divisão (quarto nível do estadual). A agremiação, que teve em seus quadros nomes como Nelson Zorzetto, Zé Márcio, Flávio Boretti e Mineiro, jogou a Terceira Divisão de Profissionais, enfrentando times como o Bragantino, Macedo e Golfinho, ambos de Guarulhos, União Possense, de Santo Antônio de Posse e o próprio Mogi Mirim EC. 1978 foi, inclusive, o único ano em que dois clubes da mesma cidade da Baixa Mogiana se enfrentaram em uma competição profissional.

Ainda em 1978, o IAC voltou, na Segunda Divisão (equivalente à atual Série A3), e a longa passagem do time grená foi encerrada em 1997. Um dos grandes rivais do Itapira neste período foi o Atlético Guaçuano. Fundado em 1929, o Mandi estreou profissionalmente apenas em 1975, ano em que ganhou a Série Petronilho de Brito, um dos grandes momentos em sua trajetória. O clube se manteve na ativa, com mínimas ausências, até 2001.

O projeto foi retomado em 2005 e seguiu até 2014, ano do rebaixamento para a última divisão. Desde então, o Mandi deixou Mogi Guaçu órfã e não atua mais profissionalmente. Desde 1975, este é o maior intervalo ausente de um dos clubes que ajudaram a construir a história do futebol na Baixa Mogiana. Um roteiro rico e que será valorizado nas páginas do GRANDE JOGADA em uma luta pela preservação do passado, contra a desorganização do presente e por um futuro digno dos esportistas que defenderam a nossa região.

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