Nutrição: o ingrediente do sucesso da Free Play

Conquistar. Este verbo é conjugado há milênios e em milhares de dialetos e idiomas. No esporte, por mais que haja muita honra em participar, vencer é o objetivo da maioria. No caso do alto rendimento, é a meta de todos. Para alcançar os melhores resultados, é necessário superar um quebra-cabeça de fatores. Não basta ter a genética. Tem que treinar. Não basta treinar. É preciso ser melhor que os adversários e conhecer os próprios limites e necessidades.

Dentro deste leque de ramais que levam os atletas às conquistas está a nutrição. E ele é fundamental. Há mais de uma década, a Free Play/Sejel, de Mogi Mirim, mantém parceria com a equipe da nutricionista Marta Cecilia Soli Alves Rochele. Graduada em nutrição pela Universidade de São Paulo (USP), em 1976, ela possui doutorado em nutrição no esporte pela Unicamp. É uma especialista no assunto e possui em seu vasto currículo a assessoria a nomes importantes no esporte.

O bicampeão mundial de Jiu Jitsu, Rafael Mendes Godoy, está entre os atendidos. Porém, a relação da nutricionista com a natação é inegável. Trabalhou com Guilherme Guido, detentor de duas medalhas de ouro em mundiais de piscina curta. O campeão olímpico César Cielo também está na lista. Durante sete anos, Marta foi a responsável pela nutrição daquele que se tornou uma das referências na modalidade no país.

A intimidade com a natação vem da tese de doutorado com nadadores. Apesar da especialidade ser a nutrição esportiva em geral, até porque há um tronco comum de necessidades nutricionais no esporte, quando a pauta é natação, ela entende e muito bem. “Quando se fala em especificidades, realmente tenho uma relação na área de nutrição de nadadores, com um grupo de pesquisa com nadadores de elite”, destaca Marta.

Já a relação com a Free Play se deve ao encontro de ambos na Universidade Metodista de Piracicaba, em que Ricardo Martiniano, coordenador da equipe, fez graduação em educação física. “Sempre ministrei uma matéria chamada nutrição de atletas e desportistas. Foi aí que o conheci como aluno. Um dia, ele fez contato comigo através da internet, para fazer assessoria nutricional junto aos atletas da Free Play, em Mogi Mirim”.

Marta ressaltou que, para ser um campeão, é necessário ter a genética e treinar muito. E a nutrição entra nesta lista de aspectos essenciais. “A nutrição é o fator decisivo para alcançar um primeiro,  segundo, terceiro, quarto lugar. Damos esta energia, esta garra, para ele enfrentar o dia a dia da sua modalidade esportiva”. Devido à grande quantidade de atletas, Marta faz o caminho inverso do habitual. Os nadadores não são atendidos em seu consultório, em Piracicaba. Ela é que se desloca até Mogi Mirim e realiza as consultas na academia.

“Usamos o espaço. Levo aparelhos, realizo as consultas agendadas e retorno dias depois para levar a dieta, que não fica pronta na hora”. A nutricionista explicou que é realizada uma grande avaliação nutricional no primeiro dia. São obtidas informações sobre massa magra, massa gorda, percentual de gordura de cada atleta, história de vida, hábitos e outras particularidades. “Precisamos saber se há problemas de saúde. Alguns, são bem específicos e isto será levado em conta no trabalho de orientação”. No segundo encontro, é feita a entrega dos planos alimentares individualizados. Neles, estão calculadas as características pessoais, como idade, sexo, treinamento e histórico de vida e saúde.

“Retornamos após uns 40, 45 dias. É aí que vemos como reagiram. Em geral, é um pacote de quatro consultas para começar a introduzir o trabalho e para que a nutrição possa mostrar a diferença. Acertamos o peso de quem está um pouco gordinho, recuperamos o peso de quem está abaixo do peso ou simplesmente otimizamos o peso atual para melhor condição de desempenho”.

ALIMENTAÇÃO

Com 42 anos de profissão, Marta tem gabarito suficiente para deliberar sobre o assunto. A nutricionista crava. “Nutrição é comida no prato”. A frase está atrelada à cultura recente de suplementação como uma quase substituta da alimentação em si. “O ser humano não chegou a 2019 tomando cápsulas e comendo sachês de proteínas ou de pós de aminoácidos. Chegou comendo comida. O homem da caverna não tinha uma farmácia da esquina. O homem teve que tirar da natureza alimentos e deles os nutrientes para a nossa saúde. Sou aquela velha professora que ainda acredita nisso e levamos muitos atletas ao lugar mais alto do pódio”, enfatizou.

Ela explica que a nutrição é, em resumidas e até óbvias palavras, a arte de ensinar a comer. “O atleta tem que saber que há coisas que pode comer antes de treinar, durante e após os treinos. Em períodos de competição vale a mesma coisa”. Durante todo o treinamento, a nutrição funciona como um quebra-cabeça, detalhado, mas, que ao final atinge resultados. A nutricionista ressalta o privilégio que teve de atuar com nomes da envergadura de um Cielo e ressalta que, na Free Play, tem quem esteja seguindo o mesmo caminho. E com muita fome de conquistar. “A vida profissional te trás experiências e histórias lindas do que você fez. Tive o prazer de trabalhar com um atleta como o César Cielo e, agora, com um nadador que o segue em passos largos, que é o Conrado”.

Conrado Coradi Lino é aluno da Free Play desde os dois anos. Está em seu terceiro ciclo olímpico e, em 2019, terá um ano fundamental na busca por uma vaga na Olímpiada de Tóquio, que acontece no ano que vem. Para elucidar o quanto acredita no potencial do nadador, ela relatou uma história. Há alguns anos, na véspera de uma prova, ela acompanhou a delegação.

Uma presença que não é comum, mas, que quando é viável, lhe agrada muito. Durante o almoço pré-treino, Conrado disse não gostar de abobrinha, o único legume que estava em seu prato. “O Ricardo só olhou e disse que a abobrinha iria fazê-lo ganhar. Ele disse então que não era tão ruim assim e disse para mandarem abobrinhas”, recordou Marta. A nutricionista claramente não quis dizer que a abobrinha fabrica campeões.

Mas, que uma dieta correta e, no caso de confeccionada à risca para as necessidades de Conrado, necessitava de legumes. Poderia ser brócolis, cenoura ou xuxu. As hortaliças, ricas em sais minerais e vitaminas, eram essenciais. “Acho fantástico este exemplo da abobrinha. Ninguém vai comer forçado. Mas, o Brasil possui mais de 500 hortaliças catalogadas, entre legumes, verduras e frutas. Não precisa comer todos, mas, uns 10 ou 15 tipos, para obter minha vitaminas e sais minerais. Ah, e antes que eu esqueça. No outro dia, o Conrado ganhou todas as provas que nadou”.

A importância da nutrição esportiva no alto rendimento vai, claro, muito além das fundamentais hortaliças. Há fases em que as proteínas são importantes. Em outras, os carboidratos. É por isso que, para que sejam atingidos os melhores resultados, a parceria entre a nutricionista e o educador físico, é essencial. E, com respeito a cada detalhe, a parceria tem tudo para criar vencedores.

“Uso um exemplo de como é criar grandes campeões. Estamos plantando uma árvore e nenhuma fica gigante de hoje para amanhã. É preciso plantar, cuidar dela, até ela crescer. Estamos plantando atletas para as olímpiadas e Mogi será lembrada nacional e internacionalmente. Esta é a nossa meta”.

BASE

O trabalho desenvolvido em mais de quatro décadas de atuação não tem apenas o alto nível como alvo. No caso dos atletas que estão começando uma carreira, os benefícios podem ser amplificados. “Eles tem logo, muito cedo, a orientação dietética associada a um treinamento especifico. As chances (de resultados) são ainda maiores”, frisa a nutricionista. Marta destacou que, independente do status de competição do atleta, a nutrição deve dar todo o suporte alimentar. “Quem começa assim, nossa. Sai na frente. Claro que mudam características, quantidades, mas, os princípios alimentares são semelhantes. Claro que, adaptados à fase que ele está experimentando”.

Em suma, a nutrição esportiva é essencial. Um atleta não tem como suficiente estar comendo direito. Não se vive de suplementação e, acima de tudo, a automedicação é um risco óbvio. “É muito perigoso tomar automedicação. Uma quantidade muito concentrada pode comprometer fígado, rim, pressão arterial. Tenho atletas que realmente precisam de suplemento. Que, em determinadas fases, precisam. Mas, mantemos só o altamente necessário”. E é assim que, com o zelo de uma mãe, Marta se mantém em altíssimo nível profissional. Assim como os seus assessorados. Uma parceria entre nutrição e treinamento físico que, para funcionar, precisa de um ingrediente primordial e, muitas vezes, restrito a um seleto grupo: o amor pelo que faz.

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