A covardia de assassinar uma instituição centenária

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Por Lucas Luís Valério, jornalista e diretor do jornal GRANDE JOGADA

Outubro de 1903. “Estimados jovens mogymirianos fundaram uma sociedade recreativa para exercícios de foot-ball”. Estas foram as palavras usadas pelos ‘redatores’ de A Comarca para informar aos leitores sobre o surgimento de uma agremiação que se tornaria a representante de um povo. Ali nascia o Mogy-mirim Sport Club. A grafia mudou, assim como do nome da própria cidade. O que João Pereira do Nascimento, Octávio Miranda, Justino Franco, Sebastião Paulo dos Santos Cruz e José Augusto Palhares não imaginavam é que aquela agremiação fertilizada por amigos, no início do Século XX, se tornaria conhecida em todo o planeta. A citação a esta passagem, justamente no dia 1º de fevereiro, tem uma intenção clara.

Oficialmente, ainda há quem crave que a fundação do Mogi Mirim ocorreu no primeiro dia de fevereiro de 1932. A afirmação é errônea. Neste dia, celebramos os 87 anos da reorganização de uma instituição que completará em outubro em 2019, incríveis 116 anos de existência. Provas documentais e declarações comprovam que sim, o Mogi Mirim é mais velho que Corinthians (fundado em 1910), Santos (1912) e Palmeiras (1914). E até a sua reorganização é contemporânea à fundação do São Paulo, nascido em 1930. Aliás, o Tricolor é uma ótima referência para a afirmação.

Fundado em 25 de janeiro de 1930, foi reorganizado em 16 de dezembro de 1935. Após muita confusão sobre a data, finalmente, o clube assumiu que o seu nascimento aconteceu em 1930. O Mogi Mirim também precisa assumir que a sua fundação ocorreu em outubro de 1903. Méritos todos direcionados ao historiador Nelson Patelli Júnior, homem que respeita e expõe a história da cidade e que há anos presta serviço em um de nossos concorrentes, o jornal O Popular. Concorrência meramente comercial e que fica na frieza do termo. Na essência, somos todos meios de comunicação entre o leitor e o que acontece ao nossa comunidade. E é nossa obrigação tornar propagar em 2019 que, um clube fundado em 1903, está à beira da morte. E que há quem possa sorrir com este enterro…

HISTÓRIA

Se você é um destes que não vê a hora do Mogi Mirim acabar, não ouse esboçar um sorriso. Ao ler este texto, também não disfarce, olhando para os lados. Olhe para dentro de si e torça para que este ‘clubecídio’ não seja consumado, pois, certamente, pagará por este crime. Seja na vida terrena. Seja no inferno. E por falar em ‘terras baixas’,  o Mogi Mirim Esporte Clube vive um período infernal. Agoniza em um dos momentos mais assombrosos da sua história. Vive um dos maiores dramas de um clube de futebol. Entre os centenários, talvez a crise mais terrível e devastadora. E pouca gente dá atenção a este ‘senhor’ de 115 anos, morto aos poucos, em praça pública.

Pois é, se você é da geração ‘Play Station’ e se orgulha em vestir a camisa do PSG, saiba que, em 1970, quando o clube em que Neymar ganha seus milhares de euros por minuto, o Sapão já estava perto dos 70 anos de vida. Pois é. Muitos mogimirianos, incluindo bisavôs, avôs, avós, mães e pais de vocês, que agora lêem este texto, deram litros de suor por esta agremiação. Alguns, deram o sangue mesmo. Tão vermelho quanto a cor que o clube ostenta há décadas. Dirigentes, jogadores, técnicos, cozinheiras, porteiros, massagistas, bilheteiros, preparadores físicos e de goleiros, motoristas. Torcedores. Doadores. Prefeitos, vereadores e deputados locais e tanta e tanta gente de outras terras, que, de alguma forma, ajudaram a construir um patrimônio que hoje é brutalmente assassinado. O estádio Vail Chaves é uma das partes mais valiosas deste idoso valente que, em poucos anos, deixou de receber dribles e aplausos para ser atordoado por flechadas. É uma presa quase indomável, mas que, como qualquer outra, pode ser abatida por caçadores ávidos e avarentos. Aqueles do tipo que pouco se importam com a história. Mas que terão que ler esta.

Em 1933, o Mogi Mirim garantia a alegria do seu povo em terreno próximo onde hoje funciona outra instituição histórica e poucos lhe dão misericórdia, Santa Casa. Quase 10 anos depois, ‘subiu’ algumas quadras. Até que, em agosto de 1947, após texto de autoria do deputado Décio Queiroz Teles, a área foi doada pelo Estado ao Mogi Mirim. “Pude verificar em uma das derradeiras viagens que fiz, ao interior do Estado, quando constatei e bem senti que em Mogi-Mirim, bela, florescente e progressista cidade da Mogiana, toda a sua juventude almeja ardentemente conseguir para o Mogi-Mirim Esporte Clube, tradicional entidade esportiva da localidade, a praça de esportes e jogos atléticos, em cuja construção e embelezamento, essa Associação dispendeu boa parte de seu modesto patrimônio, no intuito imprescindível de adaptá-la à finalidade destinada à dignificação do grau de cultura e adiantamento do povo mogimiriano”.

Este é um trecho da justificativa apresentada pelo deputado para que o Projeto de Lei nº 36 de 1947 fosse aprovado. E ele foi. A gleba de terras era de propriedade da antiga Empresa de Água Luz e Força de Mogi Mirim. Presidente da empresa à época, Vail Chaves, residente na Capital, assim que soube dos desejos da “mocidade mogimiriana”, não só se apressou em ceder imediatamente a essa entidade esportiva toda a área solicitada, como também estava pronto para assinar a escritura pública de doação da referida área ao Mogi Mirim Esporte Clube. Palavras do jornal da época, que tem exposição pública na Biblioteca Municipal.

É, torcedor. Enquanto muitos de seus bisavós e avós gastavam as suas economias na área, em 30 de dezembro de 1939 o Estado adquiriu toda a área da Empresa. E o clube viveu de incertezas. Finalmente, em 1947, o Estado oficializou a doação ao Mogi Mirim Esporte Clube. Mais de 70 anos depois, a área passou por inúmeras reformas. Dinheiro público, do clube e dos associados foram dispensados para tais melhorias. Suor de mogimirianos, caros amigos. Que não podem ser simplesmente transformados em cédulas de R$ 100…

ASSASSINATO

O texto da referida doação, em 1947, deixa claro que a área só retornaria ao velho proprietário, o Estado, caso o clube perca a sua finalidade. No último ano, começou a correr projetos para que a área seja doada à Prefeitura, aproveitando brecha dada pela revogação da Lei de 1947. Balela. A área é do clube. E, por ventura, se um dia alguém que esteja à sua frente deseje vendê-lo, por interesse do clube ou próprio, não poderá fazê-lo. A única forma dos tijolos erguidos pelos braços mogimirianos serem derrubados é com o fim da instituição e uma canetada qualquer do Estado hoje comandado por João Dória.

E vale dizer em alto e bom tom. Há décadas o Mogi Mirim cumpre à risca a obrigação de promover os “jogos atléticos” citados nos idos de 1947. E o clube foi além. Já teve equipes de tênis e ‘bola ao cesto’ (hoje chamado de basquetebol). Já substituiu inertes administrações públicas e deu a crianças e jovens da cidade a oportunidade de fugir de um mundo nebuloso que cresce a cada dia. O Mogi Mirim já correu pelas estradas do Estado e do Brasil envergando o nome da cidade. Ampliou o conhecimento de pessoas distantes sobre ela e seu povo. Através do esforço de mogimirianos, contribuiu com o desenvolvimento econômico do Município, atraindo empresas, dinheiro e até impostos que ainda hoje caem nos cofres da Prefeitura. Mais uma vez, um “pois é”. Muita gente que está lendo este texto, paga as suas contas, coloca o arroz e feijão na mesa para os filhos, graças ao que esta instituição centenária construiu. E ainda há quem a queira morta!

É óbvio que neste 1º de fevereiro de 2019, o torcedor do Sapão da Mogiana está triste. Desde 1970, o clube sempre esteve nas competições profissionais da Federação Paulista de Futebol. Neste ano não estará. De forma assustadora, o clube deixou a Série B do Brasileiro e a Série A1 do Paulista para o ostracismo. A vacância não causa apenas a tristeza pela falta de jogos no Vail Chaves. É uma boa oportunidade para quem quiser trazer o discurso de que o Mogi Mirim acabou. Sim, mogimiriano. Há quem fale isso de boca cheia mesmo com o clube tendo sustentado a boca dele e de outros conterrâneos por anos.

Adicione à ausência no Estadual a dívida acumulada pelo clube nos últimos anos. Um montante que foi ampliado por uma diretoria que não pagava os salários em dia, algo comprobado pelas centenas de processos perdidos na Justiça. Diretores que ainda diziam aos colaboradores que não pagariam por falta de verba e que os mesmos deveriam procurar a Justiça do Trabalho. Oras, eis aí uma derrota certa. Porém, eis aí uma derrota que não prejudicaria o bolso de quem estava com a caneta do Mogi na mão e que, por inúmeras vezes, sequer enviou representante nas audiências para defender o patrimônio do Mogi. Aquele, patrimônio. Construído com o suor dos seus entes queridos.

Um declínio que tem como uma espécie de ‘Registro de Identidade’ Luiz Henrique de Oliveira. O homem de família carioca, radicada em Guarulhos e aventurada em Mogi Mirim. Homem escolhido por Rivaldo Ferreira para comandar o clube em 2015. Naquele ano, o ex-jogador decidiu deixar a presidência após quase oito temporadas de uma relação controversa com a cidade que o acolheu ainda mirrado, no começo dos anos 90. Em campo, Rivaldo se tornou o jogador com a maior projeção entre os milhares que já passaram pelo Mogi Mirim. Dono de um talento nato. Inteligência para antever as jogadas e conquistar resultados com isso. Em 2014, ele foi profético… Disse em bom tom, durante coletiva de imprensa no Vail Chaves. “Isso aqui (estádio) vai ficar um deserto, pode ter pessoas se reunindo aqui, pode ter drogas, o campo praticamente no Centro, vai virar um museu. É triste”. As palavras que saíram da boca de quem sempre foi melhor com os pés, hoje soam como uma realidade cruel.

Em cerca de quatro anos, o Mogi Mirim saiu da elite direto para um apocalipse. O roteiro é tão cruel, que parece ter sido redigido antes de acontecer. O caos em que o clube se encontra, com a incerteza de quem o comanda, as dívidas, a falta de futebol profissional, as brigas na Justiça, a proibição de crianças no estádio, a ausência de jogos em sua própria casa. Esta soma levou muitos apaixonados a repetir frases do tipo: “que triste fim do Sapão” ou “acabaram com o Mogi”.

Torcedor, se é apaixonado pelo clube ou no mínimo respeita a história da sua cidade, troque a forma nominal do verbo. Grite para que todos saibam que “estão acabando com o Mogi”. O gerúndio evidência que há um assassinato em andamento, mas que a vítima ainda respira. Matar alguém de 115 anos é um ato de covardia. Livrar este patrimônio que tanto fez para gerações e gerações é mostrar aos seus entes atuais, sobretudo os herdeiros, que é possível construir um futuro digno. Livre de abutres. Hoje, você é o futuro de quem plantou esta semente em 1903. E de quem o reorganizou em 1932. A todos que bravamente edificaram esta história, inclusive aos que remexem em seus túmulos, um pedido de desculpas por deixarmos este lendário senhor tão vulnerável. Doemos nosso sangue tão vermelho quanto o escudo que há décadas defende a cidade com fervor. Sejamos todos Mogi Mirim Esporte Clube!

Crédito da imagem: Silveira Jr

Post Author: Lucas Valério

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3 thoughts on “A covardia de assassinar uma instituição centenária

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    Sílvia Messora

    (1 de fevereiro de 2019 - 09:06)

    Tenho uma foto de 1904, era um jogo no campo Vail Chaves.
    A foto é de minha avó. Está escrito que nesse dia ela é meu avô, que está na foto como goleiro,que eles ficaram noivos.

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    Lucas Amici

    (4 de fevereiro de 2019 - 07:03)

    Belíssimos texto e resgate histórico. Parabéns, Lucas.

    A minha grande crítica ao Mogi Mirim é que a torcida (aqui falo desde a época que acompanho, 90/00/10) nunca abraçou o clube. Foram poucos os jogos de campeonatos importantes que fui assistir e ultrapassaram 1000 torcedores. Por outro lado, foram muitos que assisti com menos que isso — até menos de 100. Isso acaba até ironizando o seu pedido do final do texto — “levantai-vos, mogimirianos” –, já que parece que grande parte da cidade está indiferente com o time.

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