Só os erros podem reconduzir o São Paulo às glórias

O São Paulo vive uma crise sem precedentes. De clube modelo a chacota. O momento é tão deprimente que os torcedores já não se decepcionam mais com as eliminações. E, aos poucos, até os rivais estão ficando sem graça com a zoeira. É o pior cenário possível para um clube de futebol. Os pontos para a chegada a este estágio já foram debatidos aos montes. A incompetência diretiva de Leco é inconteste. E não é de hoje. Em outras funções, sempre se mostrou limitado e ‘conselheirista’. No cargo máximo, tornou as quatro linhas o retrato claro de sua inaptidão dentro do futebol.

Mas, o que fazer para mudar o cenário? Em primeiro lugar, é preciso olhar para os erros com monstruosa atenção. Entre as falhas clamorosas está a transformação do clube em um moedor de treinadores. A passagem de Muricy Ramalho, interrompida no meio de 2009, motivada exatamente por um Leco sedento pela cabeça do técnico tricampeão brasileiro, foi apenas o pontapé para uma série caótica.

O clube mudou de presidentes, de executivos de futebol e seguiu com a doutrina de eliminar seus treinadores a cada insucesso. Nomes frágeis passaram pelo clube, é verdade. Doriva e Bauza são alguns exemplos. Mas, o São Paulo perdeu a chance de manter legados no período, com nomes como Juan Carlos Osorio e Rogério Ceni. Nem sempre o clube fez más escolhas. Mas, o Tricolor sempre foi mal ao tornar as escolhas uma constante.

Hoje, quem comanda o futebol é Cuca. O currículo é respeitável. O trabalho atual, contestável. Mas, seus inícios em Atlético-MG, Palmeiras e Santos não foram bons. E o resultado final ficou dentro do esperado. Ou até além, como no Galo campeão da América. Ou seja, é hora da primeira lição entrar em prática. Insistir em seu treinador até o final. Não que a simples virada de chave no modus operandi será garantia de título. Mas, é certo que a maneira atual de trabalho está errada. Então, arrisque. Mantenha Cuca.

E dê a ele um elenco ao seu molde. Mas, mais uma vez, de olho nos erros do passado. O quadro que mais aproxima o São Paulo de agremiações de menor porte é a rotatividade frenética do elenco. Quem do time que iniciou 2017 segue no elenco? E do elenco de 2018? Neste ano, já houve um processo de reformulação após a eliminação precoce na Libertadores da América e agora parece que outro está por vir. O próprio Cuca deixou a situação nas entrelinhas.

Não dá para negar que o grupo precisa de reforços. Mas, é preciso que as mudanças sejam pontuais. Há duas posições absurdamente carentes. As duas laterais carecem de peças de alto nível. Igor Vinicius foi uma aposta e apostar não é errado. E ainda há tempo para afirmação. Porém, é importante a chegada de uma figura que assuma a condição de titular e até auxilie na evolução do garoto.

Além disso, com o erro de avaliação na chegada de Bruno Peres, a posição carece, de fato, de mais uma opção. A lateral-esquerda até tem quantidade, nas nem Reinaldo e nem Léo estão em condições de dar o que o clube precisa. Reinaldo até evoluiu, mas, está longe de ser aquilo que Serginho ou Júnior já foram um dia para o clube. E, se não há peças deste quilate à disposição até mesmo no cenário internacional, que haja inteligência na busca por peças que possam assumir a camisa 6 e, principalmente, entrar na engrenagem planejada por Cuca. Não dá para contratar por contratar.

O São Paulo precisa jogar bilhar na montagem do elenco. Não é dar a tacada por dar a tacada. É preciso sempre imaginar de que forma ficará a mesa para a próxima jogada. Seja a sua ou a dos rivais. É por isso que a camisa 9 também é fundamental. Juan Dinenno tem números interessantes. Claro que o clube precisava, mesmo, é de uma certeza, como Fred ou Guerrero, mas, as finanças parecem impedir um investimento do porte. Assim, é importante monitorar 24 horas as opções de mercado e caçar a alternativa que mais chances possuem de dar o resultado desejado. E Dinneno parece (parece!) ter estas características.

Pronto. O elenco fecha com estas três peças. No gol, Volpi pode não ser um monstro ainda, mas já traz mais segurança que outros sucessores de Ceni. Jean e os meninos da base fecham o setor. Na lateral, Igor deve ter a companhia de uma peça ao estilo Cuca. O que o técnico quer? Mais marcação? A ideia é atacar? O melhor nome possível seria o de Daniel Alves, que chegaria com um carimbo que falta ao clube. Onde vai, é campeão. Mas, mesmo com toda a ótima relação de Raí com o PSG e a paixão já revelada por Dani pelo Tricolor, é uma utopia apostar no novo capitão da Seleção.

Na esquerda, Adriano foi o especulado da vez. E é um nome interessante. Possui um currículo interessante, ainda está atuando em bom nível e ainda pode atuar nas duas laterais. Pesa a grana alta. Favorece o que pode entregar em campo. Reinaldo ou Léo poderiam estar de saída, mas, lembram do bilhar? Se é para deixar a próxima jogada pronta, parece melhor ideia manter o mais jovem, apostando e sua evolução para o futuro.

Na defesa, Bruno Alves, Anderson Martins e Walce são boas peças. Há ainda os jovens Morato e Rodrigo para compor. Já Arboleda, que construiu uma curta e interessante passagem, aparece como a saída certa de junho. O defensor tem interesse em se transferir para a Europa e seu rendimento caiu nos últimos jogos. A manutenção seria importante, mas, se a reposição ocorrer com um Miranda, não seria nada mal. Veja que, com estas sugestões, o elenco envelheceria. Por isso, é fundamental que o meio-campo siga a pequena chama de esperança que o clube teve em 2019. A aposta na juventude.

Luan e Liziero devem ter a atenção redobrada para que a condição física esteja em plena ordem. O São Paulo precisa da vitalidade e versatilidade deles em uma constante. Não de vez em quando. Hudson, Tchê Tchê e Willian Farias são opções para variações e substituição e Jucilei, de queda vertiginosa de prestígio no clube, parece compor a lista de saídas certas de junho. Não acompanho o dia a dia. Sou admirador do futebol do volante. Mas, é certo que algo de errado não está certo. Caso saia, mais uma vez, pensar como no bilhar e subir Diego, primeiro volante de extrema qualidade e capitão do sub20.

Na armação, Igor Gomes demonstrou capacidade para ser titular. Pode revezar com Hernanes, dependendo do estilo de cada jogo. Não é preciso cravar um 11 titular. Apenas com o Brasileirão pela frente, montar estratégias jogo a jogo pode ser o atalho para a conquista. Nenê não é peça a ser descartada, mas, com um leque alto no setor, é provável que esteja na lista de saídas. E aí, o volante Rodrigo Nestor, que é muito mais 10 do que 8, pode ser a peça para composição, mais uma vez, olhando já para o horizonte. Há ainda Vitor Bueno, Everton e Helinho, que podem ser inseridos no setor, apesar, de eu preferi-los mais nas beiradas.

Nas pontas, há também Antony, que perdeu pontos ao declarar o desejo de disputar um torneio secundário com a Seleção Sub23 em um momento de tormenta. Ainda assim, não pode ser queimado. É o melhor desafogo técnico do elenco e precisa ser estabilizado no time, diferente do que ocorreu com Luiz Araújo e David Neres. Para ficar em dois exemplos. Joao Rojas, de bom desempenho, retorna ainda como incógnita após grave lesão e Alexandre Pato deve ser fixado como ponta após a chegada de um camisa 9. Não pareceu confortável na função e tem qualidade técnica de sobra para assumir até a condição de protagonista deste elenco. Toró e Pablo parecem mais confortáveis com a rotação de posição no ataque. Mesmo assim, o segundo é muito mais 9 e o primeiro muito mais um 7. E aí, Pablo teria a concorrência com Dinneno como grande motivação para retomar o futebol de 2018. Certo é que o elenco precisa de dois definidores de ofício.

Crédito da imagem: Rubens Chiri/São Paulo FC